Câmeras de madeira portuguesas sim senhor

A história é longa.  Vou fazer por partes.

Hoje escrevo um pouco sobre duas portuguesas. As câmeras pinhole (que deveriam ser pinhole) que recebi da Fátima Roque. Vou começar pelas câmeras.

Esta é a Roque, da esquerda. Da direita é minha pinhole polaroid.
Esta é a Fátima. Junto com o chassi de 4×5 para a qual ela foi feita.

Até onde sei ela não chegou a usar, porque as duas estavam com dois problemas de cálculo. E perfeccionista do jeito que era, acho que ela sofreu quando viu que estavam com problemas. Digo que deveriam ser câmeras pinhole (entre parênteses lá em cima)  porque não foram completadas. Faltavam detalhes, ainda nem estavam pintadas por dentro, sem acabamento, sem obturador que funcionasse, sem vedação, sem teste. Câmera sem teste ainda não é câmera.  A primeira era para polaroid mesmo, porém não sei se foi feita para um back pola específico. Resolvi adaptar para um back médio formato da hasselblad. Originalmente o back era para polaroid, mas de fato será usado com filme fuji fp100c.

A segunda câmera está linda mas o chassi ficou mais no alto, o que faz com que a câmera não alcance todo o filme no chassi. Parte dele fica “batendo” na parede de cima. Só que antes de fazer o ajuste necessário, achei melhor testar o ângulo de visão dela e depois fazer a cirurgia.

Para isso fiz um obturador temporário.

Como ela está como grande angular acho que vou fazer algum ajuste para ela ficar um pouco mais fechada, para um ângulo mais normal, com menor distorção. E fiz um pinhole para a distância que está agora.

Eu adoro agulhas de acupuntura para construir as câmeras

Essas agulhas são usadas para acupuntura das mãos, a acupuntura coreana. (Dói demais) Muito muito tempo atrás eu estudei um pouco, já que meu pai estudou e em muitos casos me ajudou bastante. Só que aplicar em mim mesma é difícil. Hoje só uso para fazer as minhas câmeras, meu tratamento artístico medicinal. 😀 mas para esta câmera usei as agulhas de costura por causa do tamanho. É um pinhole temporário. Quero arranjar um metal mais resistente para essas câmeras, para não correr risco de ficar amassado.

Até fiz um post rápido no Instagram mas para mostrar os detalhes vou colocar aqui.

Agora vou explicar um pouco sobre quem foi a Fátima Roque. Ela foi uma fotógrafa e tinha um trabalho com pinhole. A família era de Portugal, ela sempre viajava para lá e um dia encomendou para um artesão duas câmeras de madeira. Para um artesão que não está acostumado a construir câmeras é realmente difícil entender a lógica do que se precisa para realizar um trabalho desse tipo. Por isso que quando resolvi montar materiais para fotografia, fiz eu mesma. Porque mesmo explicando, desenhando, com projeto e tudo, achar alguém que tope e faça do jeito que você quer é uma tarefa árdua.

E também vai uma explicação de família. Meu papi sempre construía o que ele precisava. Eu, filha do meio e curiosa feito um detetive, perguntava de tudo. Até perguntei o motivo dele fazer e montar quase tudo o que ele precisava. Daí ele contava que a mãe dele fazia tudo. Pra ele não tinha empecilho. Se você quer algo é só ir atrás. A mãe dele fazia o tecido, costurava as roupas, fazia sapatos, fazia a comida, plantava a comida, medicava os filhos. Se não tinha remédio, coloca umas agulhas que dá certo.  Então a teimosia passou de geração em geração.

Ele aprendeu assim, de certa forma eu peguei um pouco desse pensamento. Porque na época ela não podia pedir para alguém e mesmo se tivesse como pagar nem tinha quem fizesse.  E a vida é esse acumulado de aprendizados enfim.  Eu muitas vezes até conseguiria pagar alguém para fazer. Difícil foi achar alguém que quisesse. Por exemplo na costura. Já pedi encomendas que a costureira não queria fazer de jeito nenhum. Entendo. É fora do padrão e leva mais tempo pra entender e conseguir fazer. E muitas vezes quando faz o cliente diz que não era aquilo e volta a consertar e por aí vai. Daí fui eu aprender a costurar.

A melhor ferramenta é a que você tem nas mãos. Se você consegue achar alguém que faça ou se você mesmo vai tentar, o importante é ser teimoso e construir a câmera de madeira. As minhas não chegam perto do acabamento do artesão português. Pra eu chegar nesse resultado vai demorar muito. Mas as minhas funcionaram para fotografar, então isso é o que importa.

Agora vou testar e volto para mostrar os resultados.