Sobre pinholes ou fotografia de buraco de agulha

Estamos finalizando uma turma de pinhole no Sesc Carmo e cada Sesc para mim é uma casa, que às vezes retorno, às vezes só passo e fica uma saudade…

É que cada um tem uma recepção diferente. No Carmo eu sempre vou tomar um café e o moço que trabalha lá pegou um papel com o nome da minha atividade. “Fotografia no buraco de agulha…” e deu um sorrisinho. Aí eu achei graça e brinquei que ele estava rindo da minha atividade. Daí já me tornei a pessoa reconhecível e desde então a gente conversa antes das aulas.

Daí eu mostrei a câmera e então ele já sabe até quem são os alunos, já que eles andaram com a câmera pendurada vez ou outra, nos dias que a gente saiu pra fotografar.

Essas conversas não me recordo de ter em outro curso com alguém que não estivesse ligado à atividade.

Então lá eu criei esse ritual. Sempre que posso, converso com ele. Mostro os resultados.

Afinal desde o começo, café e pinhole se misturam. (no meu cotidiano)

 

Eu amo fotografar pelo centro. Sempre falo isso. Porque desde criança eu ia para lá ajudar meu pai, fui muito cedo na adolescência buscar peças pra ele e eu ia sozinha. Sempre gostei de andar na praça da Sé, acho bonito. Mas como tudo no Brasil, acho que está desvalorizado, as pessoas não sabem a beleza que tem esse país.

Fiz saídas com alunos do cursos técnicos e livres do Senac, do Sesc Belenzinho, da Afpesp. Muitas vezes acompanhei as saídas do Edison com o pessoal do Sesc Pompéia. Mas saída de pinhole é melhor, porque muitas vezes as pessoas não fazem ideia do que a gente está fazendo.

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Parte do meu pensamento quando reflito sobre porque faço essas câmeras se volta quase como uma vingança. Ou uma conquista. Quando conseguimos dominar os conceitos de se produzir uma imagem com uma caixa de papel preto, com um pequeno furo. Aquele sentimento de “eu sei porque você aparece, imagem. Você está sendo compreendida (pelo menos no seu aspecto técnico) por mim.”

 

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Ao ver a reação de algumas pessoas lembro do meu vizinho. Ele foi um dos primeiros moradores da rua. Quando era tudo terra, dizia ele. Assim que o campus da Usp foi construído, o entorno foi sendo habitado pelas pessoas que trabalharam nas obras. O meu bairro, Rio Pequeno (amo também) em parte teve suas raízes nesse momento, pois fica logo atrás da Usp. Esse meu vizinho, seu Luís, nem sei se sabia ler. Desde pequena sempre brincava comigo, de vez em quando dava umas piruetas pra me fazer rir.

Era um homem tão simples, nem portão sua casa tinha. Eram tábuas de madeira desalinhadas. Acho que ele gostava assim. Antes eu não entendia. Hoje acho que entendo ele.

Certo dia eu andava com minha câmera pinhole totalmente disfarçada pela rua. E ele já sabia o que era. “Isso é uma câmera.” De longe ele afirmou. Já nos seus setenta anos ele enxergava bem de longe.

A maioria das pessoas não fazia ideia.

Sinto saudades dele. Que esteja em paz.

 

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Revelamos nossos filmes. O pessoal tira o filme da câmera e já colocamos pra revelar na aula seguinte. Pra ver que funciona mesmo!! Utilizamos o filme Ilford PanF Plus ISO 50 e aproveitei para revelar com o revelador que eu fiz, da fórmula do D-76 Kodak.

 

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é uma câmera charmosa vai!

 

Acho que eu amo muitas coisas. Também amo revelar. Tenho um relacionamento muito sério com a fotografia. Ela esteve comigo desde meus 19 anos. Nunca me deixou, nunca me decepcionou. Só felicidades. Dela não me separo nunca.

E sim! Revelar um filme TODO mundo deveria revelar um na vida!!

Se tem algo que me acalma é entrar no lab (mesmo que seja adaptado, afinal o que não é adaptado no começo, não é mesmo?) Nesse momento você precisa sentir que a imagem vai dar certo com seus dedos, só com o tato, porque precisa colocar o filme no escuro total. Até hoje me lembro do meu primeiro dia de revelação.

O que a gente pensa muitas vezes é que talvez não saia nada. De certa forma a mente fica no escuro por não saber o que pode acontecer. Também achava interessante esse equilíbrio entre luz e a falta dela. Ao mesmo tempo que precisamos de luz, precisamos do escuro. O yin e o yang ficavam rodando na minha cabeça.

Eu não sei exatamente como é aprender a revelar um filme fora de um espaço de laboratório, apesar de ter ensinado a eles assim. Talvez a magia seja diferente da que eu percebo, porque afinal, não coloco eles num quarto totalmente vedado à luz para enrolar o filme na espiral.

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O Jão vendo seu primeiro filme revelado

Por essas questões que resolvi dar aulas. A pesquisa e os procedimentos me chamam a atenção. Tudo o que eu queria fazer era ligado à leitura de técnicas e processos que na maioria das vezes tinham pouco material bibliográfico em português. E o que tem e é muito bom está nas universidades, nas dissertações.

Este blog eu comecei um belo dia, ( era um belo dia mesmo) enquanto eu estava na faculdade. Uma imagem que fiz em infravermelho me fez ter essa vontade de mostrar  “as coisas que não se vê”. E mais pra frente explico o que foi isso.

 

Deixo uma frase aqui do Flusser que foi o segundo post do blog. Eu só citei, sem analisar porque acho que não precisa. Mas se você ler isso de noite, é pra dormir bem, se ler mais cedo é pra começar bem o dia.

 

“Imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens.”

 

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Foto: Elizabeth Lee

Revelação. Cor?

Amo cor.

Um dia olhando fotos de cianótipos e vandykes senti falta de magenta. Coisa estranha de se sentir.

Final de semana fui revelar dois negativos. Para aproveitar o espaço e tempo peguei um tanque que cabem cinco filmes. Resolvi revelar 4 de uma vez.

Filme colorido. A perfeição. Não resisti. A felicidade tão sublime de quinze minutos com aquele cheiro ruim me fez enrolar mais cinco filmes. Não. Espera. Dá tempo de revelar mais cinco. Porque não coloquei cinco filmes na primeira leva??

Acabei com 14 filmes revelados.

Fui contar quantos tinham ainda para revelar. Mais de 30. Que absurdo. Tem filme de 2012.

Tudo que eu acreditava foi perdido em 2012. Será que aguento ver um filme de 2012?

Naquele ano eu acreditava em justiça, em coisas reais. Eu trabalhei tanto.

Eu só quero viver a vida, pelos meus irmãos e por mim. Estudei muito. Eu perdi meu pai com 22 anos e desde então a gente se vira. Sempre tentei melhorar a vida da gente.

Mas tem sempre alguém que quer fazer mal. É aquele concorrente que quer te prejudicar. É o pai da minha sobrinha que nem vê a filha e até fugiu do país para não pagar pensão. É aquela pessoa que tenta te enganar. Aquela amiga que sofre por causa de um idiota.

Ao menos o processo de revelação do filme é algo que quero fazer. O resultado dessas imagens nem sei se quero ver. Elas são o passado.

O que vale a pena ser fotografado se a gente pode se arrepender de ver novamente?

Daí fui digitalizar os resultados. Saídas fotográficas pela Lapa. Amigos. Viagem. Até agora resultados bons. Me faz lembrar do documentário sobre Araki. Perguntado sobre as suas imagens, respondeu que ele gostava de fotografar o que ele queria lembrar.

Tá aí uma das fotos dos quatorze filmes de domingo. Pra me lembrar que nada é para sempre, nem nossas convicções sobre os outros.

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efêmeros

ok… voltando a esse post em 2021 percebi que nem escrevi sobre revelação mesmo. Vou resolver isso

Pinhole

Gosto muito de fotografia. Gosto mesmo.
Quando comecei a fotografar não sabia da técnica pinhole.
Se eu soubesse disso antes meu mundo seria muito mais colorido. Imagina só aprender desde criança que se pode fotografar com
uma lata? Teria feito horrores.
Demorei a aprender fotografia pela falta de grana para comprar uma câmera. Comprei a primeira, a segunda… gastei uma grana.
Depois de uns anos, só fotografava com pinholes. Nem precisava de tantas câmeras afinal…
Na época de TCC fiz umas 7 câmeras de caixa de fósforo. Tenho de caixa de madeira, de lata…
Não importa de qual material seja. Se uma 4×5, Hassel, de papelão… amo todas elas do mesmo jeito.