Vira Vira Cianotipia

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Essa uma foto que gosto muito. Da Carol Prado, que fez uns cians em 2016 no Sesc Vila Mariana. A viragem fizemos com chá preto e as altas luzes ficaram levemente alaranjadas, a baixa luz continuou com azul porém mais fechado.

A graça do cianótipo são as interferências que podemos fazer com viragens. E tem uma boa brincadeira se usarmos ácido acético para revelar, água oxigenada para intensificar e um pouco de chá para mudar sua cor.

São materiais fáceis de comprar e sem mistério.

O que fizemos no Lab:

Banho de Água Oxigenada:

-20ml água oxigenada (pode ser 10 volumes)

-1000ml água

Depois de pronta a cópia é só mergulhar a imagem no banho, a reação é imediata. As quantidades não precisam ser exatas, faço assim mais para não gastar muita água oxigenada. Mas essa é uma diluição que faço para um turma de 10 pessoas em média. Em casa dá para usar bem menos.

Revelação com Ácido Acético:

-10ml ácido acético glacial

-1000ml água

Novamente é uma diluição que rende bem. Pode ser utilizado vinagre no lugar dessa solução. Traz mais meio tons, achei bem interessante.

Viragem com Café:

Banho 1-Rebaixador:

– 10g carbonato de sódio

– 1000ml água

Deixar o cianótipo alguns minutos nesse banho em agitação leve. A imagem irá rebaixar (sumir). o carbonato de sódio pode ser encontrado como barrilha – produto para piscina

Banho 2 – Café

Nesse banho só preparei um café forte mas não muito exagerado. Leva cerca de vinte minutos, é deixar e esperar um pouco. Mas o resultado é no olho, veja até onde agrada.

Viragem com Chá:

Banho 1 Rebaixador – o mesmo do café

Banho 2 – Chá preto

Fizemos com chá preto e chá vermelho, que vem da mesma planta. Dá um diferença de tom interessante.

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Sobre Dusting on – Revelação a pó

Há muito fiquei devendo um post mais completo sobre dusting on. Existem várias técnicas de revelação a seco mas a que eu pesquiso desde 2005 é o motivo de eu fazer essas técnicas alternativas até hoje.

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Fiz uma foto dessa chata que nem fala comigo… mas essa moça da foto me ajudou muito a chegar na fórmula. Foram meses tentando…

Já havia comentado um pouco sobre o começo disso, as técnicas descritas nos livros são um pouco diferentes daquela que eu faço. Por que? Porque a pessoa é teimosa e eu não queria que ficasse resíduo de dicromato na placa, então resolvi lavar a placa ao final do processamento como uma modificação do processo. E deu certo. Então qualquer fórmula que tiver lavagem de placa provavelmente é a minha, já que na ideia original não precisava disso, pois era uma técnica para queima em cerâmica então não fazia diferença se havia residual ou não.

 

Dusting On da Beth Lee  🙂

50ml água

2g de gelatina

10ml de mel *

5g de dicromato de potássio

 

*até mel falso funciona (sim! existe mel falso!!)

 

Como preparar a fórmula:

-Pese a gelatina. Coloque  uma parte da água fria para hidratá-la por cerca de quinze minutos. Recomendo que seja entre 20 a 25ml de água. Após esse tempo, adicione água a cerca de 55 graus mais ou menos. A temperatura final não pode ultrapassar os 50 graus, caso contrário a gelatina perde suas propriedades. Eu prefiro adicionar água a até 55 graus e deixar em banho maria até dissolver direito. Depois adicione o mel, por fim o dicromato. Essa fórmula é bem sensível à luz então luz indireta incandescente para trabalhar.

A técnica necessita de um certo controle de umidade e temperatura. Digamos que um ambiente polar talvez seja ótimo. Mas se estiver num tempo seco (ar condicionado funciona bem), a 20 graus vai dar muito certo. Se estiver úmido e quente, sinto desanimar, vai dar trabalho.

A fórmula funciona melhor se deixar descansando por cerca de 1 hora e meia.

Escolha uma superfície lisa, vidros ou metais funcionam bem. Aplique uma camada fina.

Fina é difícil de descrever. O mais fina possível. Porque senão vai demorar pra secar e vai ser à toa. Essa semana mesmo tentei mostrar uma camada fina, acho que essa percepção muda de acordo com a experiência. Tô tentando fazer um vídeo sobre isso mas tá faltando tempo. Um dia consigo.

 

Seque até o positivo ( é um processo positivo-positivo) não grudar na superfície. Se encostar a luva e não ficar marca, é o ponto certo. Sim! Use luvas! seja educado com suas fotos. E avental!! – ah mas a roupa se manchar eu jogo fora… mottainai! dê valor aos objetos. Especialmente sua saúde. (nota: eu faço esses processos e estou sempre tomando cuidado com o contato desses químicos. Se algo faz mal eu sou uma das primeiras pessoas a sentir. Eu passo mal com REPELENTE! só pra terem uma noção da sensibilidade aqui)

 

E mesa de luz. Em geral deixo o mesmo tempo de goma bicromatada. O que vai entre 2 a 3 minutos. Varia de acordo com a intensidade da lâmpada.

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momentos de revelação. o pó é muito fino. cuidado para não fazer ele levantar no ar.

E por fim momento de revelar com pigmento.

 

Eu uso o pigmento mineral. Pó xadrez funciona bem também.

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Alguém usou canela. não dá pra lavar depois.

Depois é só expor na luz novamente para terminar de endurecer o restante.

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Enfim, mergulhar em água bem gelada.

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Tive presenças ilustres num curso no Sesc Belenzinho. e ele colocou algumas fotos lindas nesse link: https://refotografia.wordpress.com/2017/06/07/dusting-on-com-beth-lee/

 

Qual é a história minha com esse processo? Em 2005 eu vi essa técnica e desde então pesquisei e testei fórmulas. As fórmulas que achei não faziam a lavagem da placa e deixava um véu acinzentado que me incomodava. Algumas vezes nem incomodava tanto, mas eu queria tirar o resíduo para ficar mais clara. Então na época pensei que como os filmes fotográficos eram feitos de gelatina, se eu adicionasse à fórmula criaria uma emulsão mais resistente. Mas até chegar nesse final feliz foram muitas tentativas. Então se não der certo na primeira é a coisa mais normal. Fiquei meses testando fórmulas.

 

 

Sobre pinholes ou fotografia de buraco de agulha

Estamos finalizando uma turma de pinhole no Sesc Carmo e cada Sesc para mim é uma casa, que às vezes retorno, às vezes só passo e fica uma saudade…

É que cada um tem uma recepção diferente. No Carmo eu sempre vou tomar um café e o moço que trabalha lá pegou um papel com o nome da minha atividade. “Fotografia no buraco de agulha…” e deu um sorrisinho. Aí eu achei graça e brinquei que ele estava rindo da minha atividade. Daí já me tornei a pessoa reconhecível e desde então a gente conversa antes das aulas.

Daí eu mostrei a câmera e então ele já sabe até quem são os alunos, já que eles andaram com a câmera pendurada vez ou outra, nos dias que a gente saiu pra fotografar.

Essas conversas não me recordo de ter em outro curso com alguém que não estivesse ligado à atividade.

Então lá eu criei esse ritual. Sempre que posso, converso com ele. Mostro os resultados.

Afinal desde o começo, café e pinhole se misturam. (no meu cotidiano)

 

Eu amo fotografar pelo centro. Sempre falo isso. Porque desde criança eu ia para lá ajudar meu pai, fui muito cedo na adolescência buscar peças pra ele e eu ia sozinha. Sempre gostei de andar na praça da Sé, acho bonito. Mas como tudo no Brasil, acho que está desvalorizado, as pessoas não sabem a beleza que tem esse país.

Fiz saídas com alunos do cursos técnicos e livres do Senac, do Sesc Belenzinho, da Afpesp. Muitas vezes acompanhei as saídas do Edison com o pessoal do Sesc Pompéia. Mas saída de pinhole é melhor, porque muitas vezes as pessoas não fazem ideia do que a gente está fazendo.

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Parte do meu pensamento quando reflito sobre porque faço essas câmeras se volta quase como uma vingança. Ou uma conquista. Quando conseguimos dominar os conceitos de se produzir uma imagem com uma caixa de papel preto, com um pequeno furo. Aquele sentimento de “eu sei porque você aparece, imagem. Você está sendo compreendida (pelo menos no seu aspecto técnico) por mim.”

 

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Ao ver a reação de algumas pessoas lembro do meu vizinho. Ele foi um dos primeiros moradores da rua. Quando era tudo terra, dizia ele. Assim que o campus da Usp foi construído, o entorno foi sendo habitado pelas pessoas que trabalharam nas obras. O meu bairro, Rio Pequeno (amo também) em parte teve suas raízes nesse momento, pois fica logo atrás da Usp. Esse meu vizinho, seu Luís, nem sei se sabia ler. Desde pequena sempre brincava comigo, de vez em quando dava umas piruetas pra me fazer rir.

Era um homem tão simples, nem portão sua casa tinha. Eram tábuas de madeira desalinhadas. Acho que ele gostava assim. Antes eu não entendia. Hoje acho que entendo ele.

Certo dia eu andava com minha câmera pinhole totalmente disfarçada pela rua. E ele já sabia o que era. “Isso é uma câmera.” De longe ele afirmou. Já nos seus setenta anos ele enxergava bem de longe.

A maioria das pessoas não fazia ideia.

Sinto saudades dele. Que esteja em paz.

 

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Revelamos nossos filmes. O pessoal tira o filme da câmera e já colocamos pra revelar na aula seguinte. Pra ver que funciona mesmo!! Utilizamos o filme Ilford PanF Plus ISO 50 e aproveitei para revelar com o revelador que eu fiz, da fórmula do D-76 Kodak.

 

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é uma câmera charmosa vai!

 

Acho que eu amo muitas coisas. Também amo revelar. Tenho um relacionamento muito sério com a fotografia. Ela esteve comigo desde meus 19 anos. Nunca me deixou, nunca me decepcionou. Só felicidades. Dela não me separo nunca.

E sim! Revelar um filme TODO mundo deveria revelar um na vida!!

Se tem algo que me acalma é entrar no lab (mesmo que seja adaptado, afinal o que não é adaptado no começo, não é mesmo?) Nesse momento você precisa sentir que a imagem vai dar certo com seus dedos, só com o tato, porque precisa colocar o filme no escuro total. Até hoje me lembro do meu primeiro dia de revelação.

O que a gente pensa muitas vezes é que talvez não saia nada. De certa forma a mente fica no escuro por não saber o que pode acontecer. Também achava interessante esse equilíbrio entre luz e a falta dela. Ao mesmo tempo que precisamos de luz, precisamos do escuro. O yin e o yang ficavam rodando na minha cabeça.

Eu não sei exatamente como é aprender a revelar um filme fora de um espaço de laboratório, apesar de ter ensinado a eles assim. Talvez a magia seja diferente da que eu percebo, porque afinal, não coloco eles num quarto totalmente vedado à luz para enrolar o filme na espiral.

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O Jão vendo seu primeiro filme revelado

Por essas questões que resolvi dar aulas. A pesquisa e os procedimentos me chamam a atenção. Tudo o que eu queria fazer era ligado à leitura de técnicas e processos que na maioria das vezes tinham pouco material bibliográfico em português. E o que tem e é muito bom está nas universidades, nas dissertações.

Este blog eu comecei um belo dia, ( era um belo dia mesmo) enquanto eu estava na faculdade. Uma imagem que fiz em infravermelho me fez ter essa vontade de mostrar  “as coisas que não se vê”. E mais pra frente explico o que foi isso.

 

Deixo uma frase aqui do Flusser que foi o segundo post do blog. Eu só citei, sem analisar porque acho que não precisa. Mas se você ler isso de noite, é pra dormir bem, se ler mais cedo é pra começar bem o dia.

 

“Imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens.”

 

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Foto: Elizabeth Lee