Plantas e imagens fotográficas sensíveis

outro dia percebi que escrevi posts de atividades e esqueci nos rascunhos :/ :/ :/

Uma delas era sobre uma atividade que teve no Sesc Interlagos sobre anthotype.

Então pensei em escrever um pouco sobre esse processo, que já errei muito e já acertei um tanto.

Mas antes vou anunciar o novo livro na qual participo com uma contribuição junto a Simone Wicca, iniciativa de Malin Fabbri do site http://www.alternativephotography.com

É uma grande honra e um prazer, já que o site me ajudou muito desde o início das minhas empreitadas foto-alternativas.

O termo emulsões talvez seja um pouco fora do que é na verdade. Não seria bem uma emulsão que preparamos para um antotipo, mas acho que vale a carga histórica da fotografia.

O tema era Esperança. Na hora pensei na Caixa de Pandora, que parecia se encaixar um tanto com a questão pandêmica. Simone também curtiu a ideia. Mas queríamos que a esperança saísse da caixa. Nosso trabalho foi feito com o uso de serragem de pau brasil. Afinal é uma pesquisa que tenho feito bem lentamente, a respeito do uso de plantas nativas e também de plantas tintureiras.

Quinze anos se passaram desde que fiz minhas primeiras experiências com plantas. E acho que esse blog começou um pouco antes disso. Vou dizer que as minhas primeiras impressões em relação ao anthotype não mudaram tanto desde então. Tecnicamente. Mas pude ver e acompanhar muitas pessoas a descobrirem esse processo, principalmente agradeço ao Sesc por me dar essa oportunidade na maioria das vezes. Quando comecei de forma rebelde a pesquisar sobre essa vertente efêmera não tinha a menor ideia de que viraria trabalho. E sempre a Simone foi minha amiga que me empurrou para muitas coisas legais, como essa participação no livro.

Vou explicar um pouco sobre meu percurso. Era um momento em que eu perdi muita coisa numa graduação que me deixava apaixonada todo dia pela fotografia. Mas de repente perdi minha orientadora, que foi demitida. Aos poucos queriam retirar o laboratório preto e branco e colorido e os processos alternativos, com a alegação de que a fotografia seria apenas a imagem digital.

Então meu trabalho foi a respeito dos processos com plantas e sobre a efemeridade da vida e talvez até da imagem digital. Comecei meu texto citando Marx. As imagens eram sobre objetos que seriam substituídos por outros (câmera de filme), imagens de álbum de família, lugares que de certa forma foram abruptamente tomados de mim.

E depois de um pouco mais de pesquisa também pelo site alternative photography cheguei no nome de Mary Somerville, que amiga de John Herschel, troca correspondências com ele a respeito do processo. Só que em nos textos sobre o processo dificilmente seu nome aparece. Porque nesse momento as mulheres não podiam publicar estudos científicos.

Enfim me faz pensar em muitas questões sobre a mulher e a produção artística e cultural. Mas isso é tema para outra conversa, porque vai ser longo.

E enquanto eu colocava meus primeiros antotipos em cima do telhado eu ficava me perguntando o que os vizinhos iam entender se explicasse para eles. É muito fora da realidade, é coisa de gente estranha? Estudei 4 anos pra usar plantas pra fazer foto. Tô subindo no telhado pra fazer meu trabalho de conclusão.

O fato é que essa pesquisa começou com uma curiosidade e parecia algo simples de ser produzido e um conceito interessante para um primeiro contato com a ideia da formação da imagem fotossensível.

E no final acredito que seja uma ótima ferramenta para se pensar nas imagens num mundo em que vivemos conectados com a tecnologia e que as fotografias são tão instantâneas que não é preciso mais fazer nada além de deslizar os dedos pela tela de um celular para fazer ou modificar muitas imagens.

Outro dia mesmo recebi mais de cem fotografias de um treino e só guardei três.

E essa imagem fotossensível que volta o olhar para as plantas. Eu sempre ouço nas aulas que depois de ter o contato com a técnica as pessoas começam a olhar mais para as plantas na rua. Pensam se vai dar certo, experimentam. Põem-se a perceber as texturas e os cheiros. Analisam as formas e espessuras das folhas. As cores das flores começam a ter outro sentido.

E para começar a estudar o processo comecei a estudar algo além da comida, plantas não convencionais e das plantas nativas. Pensar na posição do sol no meu dia a dia, para saber quanto tempo de sol bate na janela.

Pessoas muito ansiosas precisam fazer um esforço um pouco maior para produzir imagens tão lentas. É um desafio e ao mesmo tempo um exercício de auto controle. Tentar dominar esse tempo dentro de si.

O momento mágico desse processo não é o aparecimento da imagem aos nossos olhos, como quando vemos a fotografia surgir no revelador, mas a noção de que a imagem surgiu a partir das plantas, naquele papel que colorimos com um sumo e que escancara essa reprodutibilidade ou em cima de uma folha de planta.

Quando iniciei esse estudo eu ampliava as imagens em fotolito. Ou filme gráfico. Com algumas experiências vi que a imagem bem densa seria melhor para obter algum detalhamento a mais no processo. Por isso busquei fórmulas específicas para fotolito (kodalith) e preparei um revelador próprio. Hoje em dia envio o material para a gráfica para fazer o fotolito, já que esse material que eu utilizava no laboratório não é mais fabricado.

Post a atualizar – tem muita coisa pra escrever, vou fazendo aos poucos 🙂

As experiências que não cabem num blog

acontece tanta coisa no cotidiano de uma pessoa lenta como eu que não consigo dar conta de me expressar a tempo.

Nesses tempos pandêmicos me peguei pensando e me cobrando muitos erros e quando voltaram as atividades presenciais eu fiquei num misto de insegurança e timidez junto com alívio e vontade de ver as pessoas. E digo que deu alívio de ver até quem eu não gostava. E mesmo não gostando muito de alguém tenho tentado entender mais esses outros personagens da nossa vida.

As últimas atividades que realizei foram tão interessantes que gostaria de compartilhar um pouco por aqui. Não que as atividades passadas não fossem, só que percebi que não escrevo muito sobre o que fiz.

A primeira viagem mais longa que fiz depois do começo da pandemia foi para Registro, para o curso especial de fotografia no programa do Curumim de lá. Eu gosto de Registro porque foi em 2016 que a unidade do Sesc inaugurou no prédio do KKKK e fomos fazer oficinas de fotografia. Poucos meses antes de fechar o trabalho eu tive um sonho. No sonho eu viajava para o Japão e era noite, chegava naquele lugar diferente. Só que chegando no hotel tinha um Sesc. Daí eu pensei – uau, tem Sesc no Japão! 🙂 Poucos meses depois fui parar em Registro, que tem muita influência dos imigrantes japoneses. Quando lembrei do sonho achei muito divertido.

E no Curumim a proposta era atividade pinhole para comemorações do aniversário de cem anos do prédio KKKK. Fizemos fotografia com latinhas junto a fotografia de celular para as crianças de 7 a 12 anos.

o portal indica o local por onde desembarcaram os imigrantes japoneses

Apesar de ter sido construído para uso dos imigrantes japoneses o projeto segue uma estética inglesa e foi projetado por um argentino. Nos dias de foto pinhole choveu muito e não deu para explorar tanto ângulos e distâncias. Quando percebemos que a semana seria de muita chuva, preparamos de backup os tubinhos de filme, que deveriam ter um tempo menor de exposição comparado às latas que temos, de cerca de seis centímetros de diâmetro.

O Sesc Registro KKKK

Com crianças, com chuva, com pinhole – a tarefa não seria fácil, ainda mais revelando com apenas uma pequena caixa de revelação. Deixamos os furos de agulha um pouco maiores e testamos tudo antes. Mesmo assim uma ou outra foto não saiu.

O que usamos para a atividade pinhole:

  • caixa de revelação – feita por mim. Parece uma casinha de gato. 🙂
  • bandejas e pinças para revelador e fixador (não tem espaço para interruptor)
  • latinhas prontas pinhole – essas compramos a lata, furamos, pintamos, fizemos furo em alumínio e vedamos bem.
  • papel Ilford PB – neste caso foi o brilhante, porque é mais fácil de sentir qual o lado certo sem enxergar a superfície lisa. pré cortado, guardado em caixa pequena.
  • Revelador e fixador – eu que fiz – Dektol e F24 – podia ser parodinal e outro fixador
  • lâmpada vermelha – porque para carregar as câmeras e testar usamos o quarto do hotel mesmo como laboratório. coloquei o cobertor na janela – que não tinha blackout – ligamos a lâmpada meio longe e ficamos no chão para revelar. Se fosse fazer tudo na caixa demoraria muito.

As aulas eram terças e quintas, então tinha a quarta para fazer ajustes e consertar alguma coisa. Só à noite tinha uma aula de fotografia de celular para empresas então dava pra revisar e se preparar para essa aula durante a tarde.

A construção da pinhole pode ser feita de forma bem lúdica, só fazendo furo de agulha, vedando qualquer outra entrada de luz e pronto. No entanto, para ter um controle dos resultados e não ter muitas decepções pode-se calcular o tamanho de acordo com a distância entre o furo e o plano em que ficará o papel. Existem diversas tabelas de cálculos. Mas toda vez que falo de cálculos nas aulas de fotografia tem gente que já começa a tremer o olho, ter tique, até esquece de respirar. (no começo achava isso muito fora do comum, porque meu irmão era da física e minha irmã se fala uns números perto dela, porcentagens, ela já calcula tudo de cabeça quase nunca precisa de calculadora.)

latinhas em cima da caixa de revelação. Elas apontam para Shakira – Ela quem dá a vez da fala do Curumim

E na atividade estava projetada a fotografia com celular. O que achei curioso é que pensei que as crianças fotografavam muito mais com um celular mas percebi que no caso dessa turma não era bem assim.

quando vê a imagem positiva achou mágica de novo

Ao explicar sobre essa fotografia as respostas sobre o funcionamento foram relacionadas às ciências por alguns. Outros diziam que era mentira, que a gente colocou uma imagem no papel antes, mágica. Essa relação ciência / misticismo – nem vou me ater a isso. Só que quando eu voltei pra São Paulo eu percebi que errei. Em nenhum momento elas viram a imagem como arte e eu não enfatizei isso.

Porque falando em arte fiquei procurando nas horas vagas algum lugar que vendesse a produção local da cidade, artesanal ou produção da própria cidade, já que o Mercado Municipal estava em reforma. Foi difícil achar alguém que soubesse que eu não queria coisas da China… da primeira vez que fui à cidade encontrei uma loja que vendia o chá produzido na região porém não me recordava onde era. Depois encontrei!

Imagem do Google – não tem mais a plaquinha mas tem a loja ainda sim

A Casa Watanabe fica ao lado do Sesc. A placa não existe mais e a loja fica aberta por poucas horas por dia. Os donos estão bem idosos e as filhas cuidam deles. Lá encontrei o chá artesanal da região.

achados da Watanabe – tem muita banana em Registro – a fruta que mais gosto

É uma família incrível. Dona Conceição tem uns 90 anos e adora drama coreano. Ela e sua filha Ana viraram minhas amigas em poucas horas de conversa e já tenho saudades delas. Todos os filhos de Conceição têm alguma relação com arte; desenham, pintam, tocam instrumentos musicais mas nunca seguiram profissionalmente.

Ela diz que odeia o balcão (da loja) porque passou muito tempo lá. Eu entendo. Quando a gente se sente preso a algo que não gosta é como um enclausuramento. Ana disse que quando os pais falecerem ela não vai querer mais tocar a loja. Por um lado não deixa de ser uma perda, pois o local parece quase um patrimônio da cidade. Mas posso compreender sua decisão.

No meio disso estava com a atividade de Retratos em Pinhole no Sesc Bom Retiro aos sábados, 10 e 24 de setembro. Este último seria Dia do Cianotipo e planejava fazer algo junto a Simone mais uma vez.

Aí encontrei a loja Das Manas, produtos regionais do Vale.

então dia 17 poderíamos fazer o cian já que dia 24 voltaria ao Bom Retiro para a atividade ligada à expo do Penna.

Eu levei a câmera Fa pra fotografar comigo. A pinhole de madeira. Como eu sabia que não teria muita luz, tive que fazer umas adaptações nela, senão o tempo de exposição seria catastrófico.

Tive que modificar o pinhole e aumentar bastante a entrada de luz. Compremeteria a nitidez mas era ambiente interno e eu sabia que mesmo com luz artificial seria bastante tempo de exposição.

Arte também salva. ela tem me salvado 🙂

Era para ser realizada na entrada da unidade só que alteraram o local. Por isso imaginei que eu tivesse menos luz do que o espaço principal. E foi isso mesmo. Apesar de parecer que não, a intensidade de luz era bem menor. Tenho optado por aproveitar o máximo a luz do sol possível nesse retorno pós começo de pandemia. Antes eu levava fontes de luz muito fortes, mas as pessoas se assustavam muito com a luz do flash.

Quinze segundos

Bom, sobre o cian com a Simone, ficará para o próximo post. Essa acima foi a última foto da atividade no Bom Retiro. Vieram dois amigos e tirei a foto dos dois. Depois um resolveu que queria dar uma foto para a avó, acho, e mais uma para a namorada. Então tirei fotos individuais. Eles ficaram super empolgados em fazer as fotos e ficaram próximo na hora da revelação. Na pressa, acabei riscando um pouco a chapa. O RX risca fácil.

Esse primeiro contato com a imagem analógica e um tanto experimental sempre me traz as mesmas frases em locais diferentes. Sempre ouço algo do tipo “foto antiga” ou “como era antigamente”. Mas das crianças eu não ouço esse tipo de frase. É um descobrimento, algo novo, fora do comum. E quando alguém fala que algo é antigo percebo que fico o dia todo pensando. O que é antigo?

Queria poder ter mostrado a eles a revelação na luz vermelha, que nessa atividade nem luz vermelha teve. Revelei dentro de um tanque escuro a imagem das pessoas que foram atingidas pela luz num determinado momento em determinado espaço e espero tê-las atingido de alguma forma, não somente como a pessoa que faz umas fotos antigas (que estão sendo feitas naquele momento, então não entendo a palavra antiga). Como essa fotografia nunca saiu de mim eu não entendo dessa forma.

Eu espero que a experiência de ser fotografado e mesmo que numa atividade tão rápida sobreviva na memória e que em algum momento isso ajude a pensar e refletir sobre a própria vida, o tempo e talvez no próprio eu.