Era uma vez um filme 3200…

Algum tempo atrás comecei a dar aulas para uma pessoa que tinha comprado muitos filmes 120 de ISO3200. Isso ficou na geladeira, depois ele fotografou alguns e ao iniciar as aulas foi um dos primeiros filmes que revelamos. Os filmes não foram o objetivo principal. Ele aprendeu fotografia sozinho por muitos anos e sentia que faltava alguma coisa no aprendizado, então fui tentando complementar o conhecimento (apesar de eu sentir que ele foge um pouco das aulas).

Se alguém já teve experiência com um filme desse, guardado por muito tempo, sabe do que estou falando. Chega um momento que a textura do papel aparece nas imagens, fora o véu de base que ocorre.

Então foi um desânimo, um chororô e ele achou que havia perdido tudo. (detalhe: ainda tem muitos desses filmes para ele fotografar, conservados na geladeira) Filmes e filmes batidos em viagens… Eu deixei ele absorver um pouco a informação e, bom, fui atrás de melhorar o lote. Mas sabem, eu acabo trabalhando muito e demoro pra finalizar as coisas. Então final do ano passado eu tinha realizado alguns testes com filmes muito vencidos e já vislumbrava uma opção para pelo menos obter melhores resultados.

A parte difícil de ministrar aulas para quem já tem uma certa experiência sendo autodidata é que fica difícil descobrir onde estão as lacunas de aprendizado que precisamos preencher. E também levei um bom tempo para compreender qual a parte do ensino que ele necessitava. Já faz um ano que estamos em aulas particulares e só agora começo a entender melhor qual é a questão. (mas não foi um ano ininterrupto, compromissos de ambas as partes acabaram afetando a continuidade)

Pra começar que filme 3200 pra mim é uma mentira hehehehe

Então o que sugeri foi bater duas escalas iguais de cinco pontos e revelar com benzotriazol em porções diferentes. Aí foi parte do nosso diálogo na última aula: (BL: eu, AL: aluno)

BL: Vamos bater o filme como 3200, 2 pontos pra cima, zero e 2 pontos pra baixo, revelar com D76 1:1 com benzo a 1% e 2%.

AL: Mas não vamos revelar sem o adicional (benzo) pra saber como fica?

BL: Não, porque já vimos o resultado nas revelações anteriores. Fotografamos a mesma cena, com objetos de cores diferentes. Duas escalas no mesmo filme 120, corto no meio e revelo com essa diferença no químico. (a parte de fotografar cores diferentes nem era tão necessário neste teste, mas como já faríamos uma escala, seria bom pra mim ver também até onde ele entendia sobre cores)

AL: Mas como você vai saber onde cortar?

BL: Não vou. Vou medir no meio (no escuro total) e cortar. por isso no meio das escalas deixaremos um frame sem imagem, pra saber onde uma começa e a outra termina. E porque escala? Todo teste de revelação requer uma escala. Assim, saberemos qual seria a melhor exposição para esse filme.

E o que é benzotriazol? É um material que diluído em proporção muito ínfima nos reveladores auxilia no véu de base de papéis fotográficos especialmente. Em muito último caso utilizo nos filmes, filmes vencidos que estão muito escuros. Ou seja, aproveitamento de papel vencido será fácil com ele. E qual a proporção?

Solução de estoque: 1g de benzotriazol para 100ml de água.

Para cada litro de revelador, utilizamos 1ml desta solução de estoque.

Sim, só isso mesmo.

Enfim, revelamos. (eu né 😀 ) E verificamos os resultados. Como eu já imaginava, 2% seria muito. Mas 1% não acabaria com todas as manchas que ocorrem com esse tipo de filme.

Essa textura visível no canto inferior esquerdo. O filme ficaria inteiro com esse problema sem o benzo. Mas ficou somente em alguns frames.

Daria para experimentar outros reveladores, diluições, mas não posso ficar gastando filme de aluno com os testes que eu quero fazer 😀

E pela escala também deu para verificar que o melhor resultado seria fotografar com 2 a 3 pontos a mais. ( eu diria pra ele subrevelar mas só vou falar e explicar se ele parar de fugir das minhas aulas) 😀

Não é demais? Eu adoro o benzo. A fotografia química é essa compreensão dos materiais e objetos fotográficos que reagem e contam essa história do que já se inventou e fabricou. E resolver e fazer funcionar é tão bonito. E damos um jeito dessa técnica se encaixar no que queremos ver e obter.

Algum tempo atrás coloquei nos stories do instagram uma frase que o William Crawford coloca no livro dele que eu achei lindo. Esqueci de colocar antes aqui (eu comecei a fazer stories na pandemia porque eu me senti muito triste e sozinha, acabou sendo meu diário de atividades e pensamentos que na verdade eu devia colocar aqui, mas também tem muita bobagem minha :D)

“Look it up, right now, and you will see the shell around you. It is the limit of your visual field. You can climb to the roof and make the shell expand by miles. You can stretch it and change its shape as you move through the world, but you cannot crack it. Only photographt can crack it.” W. Crawford – Keepers of Light.

Mover e esticar essa ação fotoquímica nos materiais tem um pouco pra mim de tentar essa expansão do olhar, que vai além do visual, de dominar como um alquimista o poder de ver as coisas e fazer essa concha funcionar mais além (Flusser meu parça) pelos materiais e estender até a idade (anti-aging kkkk) dos produtos industrializados da fotografia.

FroFA 7 no lab.irinto lab

Neste ano a nossa feira itinerante segue o curso pra Zona Leste.

Em conjunto com o Lab.irinto lab, a feira analógica será dia 30/11 e 01/12 de 2024 das 10h – 18h

Rua Pedro de Godoi, 406 – a 400m do metrô vila Prudente

Os participantes: RebobinaLab, FotoRetro Lab, Nanni Lab, Brechó Analógico, Fidelio, s3tstore, Festival de Arte Analógica, Festival de Filme Vencidos, MovieStill, oBarcoEstudio, Bones Films e Kodak Mafia.

Rola festa, oficinas e é como sempre o encontro para seres analógicos insistentes 🙂

Como estou com aulas durante a semana toda não estou muito à frente da organização.

Sábado de manhã bem provavelmente darei aula mas vou atuando de longe na divulgação, enquanto der.

Cursos de Fotografia no CULT SP PRO

Participo com curso no Oswald de Andrade sobre fotografia e cidade – digital – e em São Caetano na Fundação de Artes.

Recebi esse convite de atuar num espaço que gosto muito e tenho muito carinho – o Oswald de Andrade e em espaços de arte de outras cidades ou municípios e fiquei bem feliz em poder contribuir mais uma vez com a cultura de São Paulo em cursos gratuitos para a população, que é o que eu acredito. Ensino para todos.

No curso Fotografia 1 pensei em abordar o básico sobre fotografia com um tempero sobre o que foi a fotografia para pensar o que podemos fazer adiante. Para mim não tem como falar de fotografia e não olhar para trás e aprender sobre o que veio antes.

Fotografia 2 tem um pouco da linguagem visual sobre a evolução da imagem e das técnicas diversas em campos do saber, além de prática e edição de conteúdo.

Fotografia e cidade é um curso que pensei em muita prática e análise de imagem, tanto em fotolivros e exposições, referente em espacial a São Paulo.

No Oswald começa nesta sexta-feira. Em São Caetano será a partir do dia 06/11 https://forms.gle/4SaULsmrPwFE37LDA

🙂

O CULTSP PRO é um Programa da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gerido pela Organização Social de Cultura IDG – Instituto de Desenvolvimento e Gestão.

https://www.cultsppro.org.br/cursos/mapa-de-cursos/fotografia-e-a-cidade-celulares-e-equipamentos-pr%C3%B3prios

De São Caetano será a partir do dia 6/11

https://www.cultsppro.org.br/cursos/mapa-de-cursos/fotografia-1-celulares-e-equipamentos-pr%C3%B3prios

https://www.cultsppro.org.br/cursos/mapa-de-cursos/fotografia-2-celulares-e-equipamentos-pr%C3%B3prios

https://www.cultsppro.org.br/cursos/mapa-de-cursos/a-fotografia-e-a-cidade

ciano = a + b ou a ou b ?

Algum tempo atrás, enquanto eu preparava uma aula para o Sesc Pompéia e peguei um frasco de reagente para cianotipia, vi que tinha três frascos com datas de validade muito diferentes. Pra garantir que funcionaria naquele momento da aula, peguei o que sabia que estava bom mas surgiu a dúvida sobre os outros dois.

Aí num dia, enquanto aguardava os inscritos no curso chegarem provavelmente, resolvi preparar alguns mililitros de cada um para passar em um papel e fazer o teste. Terminou o curso, guardei o papel, esqueci na pasta. Virou o ano e ainda não tinha feito o teste.

Com a minha última mudança ficou um monte de material pra organizar. E sexta-feira estava organizando todos os meus resultados e papéis para utilizar. Achei esse papel e pensei – este final de semana é um bom momento para isso. Agosto e setembro começaram meio lentos de trabalho externo por aqui. Mas outubro mal começou e enfim tenho novos projetos que sei que tomarão mais dedicação minha.

Num papel neutro apliquei o reagente de 2014, 2003 e 2020. Coloquei um negativo qualquer e deixei exposto ao sol por um tempo.

pela diferença de tonalidade após a exposição parecia que ia dar diferença
acima 2014, meio 2003 e embaixo 2020

Ou seja, qualquer um dos três daria algum resultado. Então posso utilizar sem risco de não dar algo certo quanto aos seus funcionamentos. Levando-se em conta que foi um papel preparado na pressa e as quantidades em cada pedaço do papel não estão exatamente iguais.

Agora a explicação.

Muitos anos atrás eu ficava me perguntando algo que acredito que todo mundo que faz essa técnica há algum tempo deve ter se questionado. Precisa das duas partes? E se tiver só parte A? E se tiver só B? e se colocar mais de A ou mais de B?

E a esse respeito já explico faz um bom tempo durante as aulas. Existem várias formulações com proporções diferentes, existem variações de reagentes, fora o que já comentei sobre fatores externos que podem influenciar no resultado.

A verdade é que esta técnica pode ser realizada com os reagentes isolados, porém não funcionarão tão bem como da forma mais comum, parte A e parte B.

Neste teste utilizei apenas o ferricianeto de potássio (sim) que solo, vai demorar muitas horas mas forma o azul, de tonalidade talvez mais clara, tempo de exposição muito mais longo mesmo.

Então hoje eu acordei, vi o sol saindo e já coloquei lá fora. Voltei 18h para casa e processei a imagem.

Art Emulsion

Acho que no começo da faculdade eu experimentei com o liquid light mas estava muito vencido e por um tempo não pensei em tentar fazer algo parecido. Liquid light é um produto fotossensível que pode ser aplicado em superfícies diversas para fazer imagens fotográficas.

Aí um belo dia uma amiga, Juliana, me pergunta se não quero ficar com uma emulsão que ela pediu pra um parente do Japão trazer. O Art Emulsion da Fuji, que aparentemente só vende por lá. Ela não conseguiu fazer imagem com o produto, então como o produto estava vencido, podia muito não dar certo comigo também.

no começo a gente ganha manchas 🙂

Testei em papel e vidro. Preparei da forma como informava no manual mas não gostei muito num primeiro momento dessas pinceladas, que era o método de aplicação indicado.

já com o primeiro teste de manchas percebi que o tempo deveria ser encurtado

Modifiquei o tempo de exposição e tomei mais cuidado com a luz. Só que na ansiedade não limpei os primeiros vidros direito então dois descolaram nas bordas, o que se pode verificar na imagem acima. Mas foi o suficiente pra me deixar bem feliz com o resultado. Desta vez tentei no vidro primeiro, mas quero testar em diversas superfícies.

usei os refugos de vidro para os primeiros testes.

ainda não entendi o ISO aproximado do produto mas farei testes mais adequados. Por hora, esse primeiro contato foi só pra saber se daria algo certo e colocarei meu passo-a-passo logo mais.

Fiquei feliz de poder alcançar algo que nem sabia que existia da Fuji. Pena que esses materiais nunca chegam por aqui.

sobre Conservação no Sesc CPF com Sandra Baruki

Em julho eu participei de um curso com a Sandra Baruki no Sesc 14 Bis – CPF – sobre conservação de acervos de fotografia.

A Sandra trabalhou na Funarte e uma das pessoas responsáveis pela preservação de muito material público importante. Por se tratar de um assunto ligado ao meu na fotografia, fui lá marcar minha presença.

Sandra à esquerda. Ela apresentou diversos tipos de processos durante o curso.
um ambrotipo em moldura. Acervo da Sandra Baruki
uma cópia em platina
Acima gelatina e prata com viragem a ouro. Abaixo, colodio com platina e ouro.

Sobre esses eventos às vezes eu coloco algumas infos nos stories mas percebi que eu precisava deixar isso registrado de outra forma. E por causa da minha proposta de fazer álbuns fazia todo o sentido começar a olhar para esse campo da conservação com mais seriedade. Tenho pesquisado muito sobre papéis. Desde que fiz o trabalho das capas de livro percebi que esse ramo industrial do papel acaba sendo um tema importante pra eu entender, visto que todas as alterações nos papéis complicam a minha vida no laboratório.

Sobre álbuns

comecei a fazer álbuns por uma questão de simples resgate das memórias que nem são minhas. Acho que em parte é uma tentativa de resgatar a história da família que nem conheço. Quando vi os álbuns do bisavô da Fabi percebi que existia algo a ser preservado lá, porque a encadernação era artesanal, diferente dos álbuns atuais que parece muito plástico e que justamente por ter sido produzido por alguém me pareceu que o cuidado era bem diferente e bem majestoso.

Eu não tive álbuns assim na minha família. Só lembro de alguns bons anos atrás ter comprado um álbum e não gostei muito da solução. Cheio de plástico e somente para tamanhos 10x15cm, ou seja, não serve para todas as imagens que gostaria de colocar.

adoro essas fotos desfocadas. eu e meus irmãos, grudados desde sempre.
e esse plástico que não dá pra saber se é próprio.

Também me surgiu outra questão. Eu não tenho imagens dos últimos dez anos da minha própria família. Bom, nos quase dez anos eu na verdade não vivi com meus irmãos e minha sobrinha. Me separei faz pouco tempo. Ainda assim tenho poucas imagens em suporte material e olhando hoje vi que não tenho fotos impressas da minha sobrinha dos últimos dez anos.

Bom, lado pessoal da coisa, minha sobrinha é uma menina PCD. Eu sei que a chance dela viver até a fase adulta é muito pequena. E o aprendizado dela é lento, com as crises de epilepsia percebo que as palavras que ela pouco aprendeu, esquece muito rápido. Desde os seus nove meses tenho imagens de celular, muitas, porque quando ela via que eu ia tirar foto com meu Sony Ericsson ela sorria. São tantas imagens que nem sei como vou fazer. às vezes acho que vou fazer um álbum para durar mais que ela. Tenho pensado nessa questão da duração das imagens. Por isso resolvi fazer atividades sobre álbuns, para fazer as pessoas produzirem álbuns para preservar essas imagens das pessoas importantes nas suas vidas.

Já se passaram dois encontros no curso do Sesc Pompéia. Esta semana iniciaremos a montagem dos primeiros álbuns.

Mas já vamos pensar onde guardamos as fotos da família? não me diga que é na caixa de sapato.

Encadernação de álbuns no Pomps!

a boa notícia é que curso de encadernação foi pro Sesc Pompéia, terças na parte da noite, das 19h às 22h. Desta vez, faremos mais modelos de álbuns.

A verdade é que não sou uma pessoa especializada em encadernação mas usei um pouco desse conhecimento aliado ao interesse pela fotografia para pensar em álbuns. Com o tempo a ideia de encontrar e fazer um objeto que fizesse mais sentido do que os álbuns com plásticos e industrializados que não duraram nada em casa ou que se deterioraram muito rápido se fez importante para armazenar as minhas próprias memórias.

Ainda estou refletindo também sobre um jeito mais fácil de guardar meus trabalhos em papel em diversos formatos. Pastas e caixas não estão me satisfazendo muito nesse sentido.

Nesta semana abrem inscrições para público em geral. Dia 8/8 a partir das 14h pelo site ou aplicativo sesc

https://www.sescsp.org.br/programacao/encadernacoes-para-albuns-fotograficos-2