AZUL – new ciano e traditional ciano

Algum tempo atrás eu achava que nunca iria colocar as mãos num oxalato férrico amoniacal.

Acabou que veio parar um na minha mão. Comprei o frasco já aberto de um fotógrafo algum tempo atrás e resolvi testar recentemente.

Quem faz cianotipia sabe que a composição é Citrato férrico amoniacal e Ferricianeto de potássio.

E sobre essa fórmula há muito o que falar, só que como pude preparar o New Ciano, fórmula do professor Mike Ware, resolvi fazer um comparativo. Cianotipia é uma pesquisa que não tem fim. Nomearei aqui este como NC e o tradicional como TC

Existem diversas variações de como de fazer fórmulas, proporções, métodos a respeito de ciano. Resumindo muito. E um método recente é o NC, que utiliza oxalato férrico amoniacal no lugar do citrato férrico amoniacal. O preparo é um tanto mais meticuloso e a filtragem é necessária. Só que este reagente não é comercializado no Brasil, sendo possível obtê-lo apenas com compras internacionais.

Das fórmulas fotográficas, o ciano é um dos processos mais lentos para formar a imagem à luz. Num sol direto aqui em São Paulo leva cerca de dez a vinte minutos de exposição. O NC em teoria é mais rápido e se ganha em contraste. Não fiz um estudo super aprofundado mas seguem minhas primeiras impressões.

a embalagem

E vou dizer que o tom de verde é apaixonante, daquele verde radioativo, fosforescente bem bonito. Tive que me conter para não deixar aberto em luz ambiente e ficar admirando um pouco mais a cor.

Tem a descrição do processo no Alternative Photography, tem no site do Mike Ware, vou resumir aqui em tradução livre 🙂

Basicamente dissolve-se 10g do Oxalato férrico amoniacal em água 20cc a 70 graus Celsius.

Em outro recipiente dissolve-se 30g do oxalato em água 3cc a 50 graus Celsius.

Adiciona o primeiro ao segundo e deixa esfriar até atingir cerca de 20 graus Celsius.

Inevitavelmente formará alguns cristais que devem ser filtrados. Adiciona-se 0,1g de dicromato de potássio. Deixar descansando por pelo menos um dia.

A parte difícil é escolher um papel que não manche as altas luzes. Todos os que eu testei velaram um pouco ou muito e ficaram bem escuro onde teria branco. Parece que essa é uma característica dessa fórmula. Ou seja, não adianta economizar no papel, tem que achar um bom papel mesmo. Num papel neutro foi a minha melhor opção até agora, mas mesmo assim não foi o melhor resultado.

esquerda TC. direita NC. Mesmo tempo e papel.

deixei esta imagem acima na janela, tempo nubladão e foi cerca de 1 hora e meia. O TC não estava nem pronto. O NC ficou mega escuro. Chutei metade do tempo para fazer as próximas. Errei completamente. (o teste não está muito bonito, a pressa de tentar testar algo enquanto tento trabalhar no dia a dia)

um teste um pouco melhor. TC ficou uma hora. NC vinte e cinco minutos. Ainda ficou bem escura e o papel neutro velou bem a alta luz.

O tom do NC ficou bem mais intenso, deve ser cerca de 1/5 a 1/6 do tempo de exposição de um ciano comum. Agora deu pra perceber um ganho de contraste. Nesse meio tempo perdi alguns papéis pra conseguir fazer esse teste razoável. Como os tempos de referência do processo são feitos com mesas de luz diferentes das minhas, não adianta muito se referenciar por aí

temos detalhes nas janelas e porta

Considerações até agora é que o azul é mais intenso e uma pena que não esteja disponível no Brasil. Nos últimos anos o preço do reagente aumentou tanto que chega a ser triste.

Gostaria de tornar essa fotografia mais acessível no Brasil, mas eu vejo que nem eu consigo acessar tantas coisas. E desde que se iniciaram mais conflitos no mundo alguns reagentes usados na fotografia estão sendo controlados de forma mais rigorosa.

Mas está aí a descrição de mais alguma opção e incrivelmente bonito na minha opinião.

Curso Sesc Pompéia – 1º semestre 2023

Segue link da atividade

https://www.sescsp.org.br/programacao/fotografia-alternativa-cianotipia-van-dyke-e-papel-salgado/

Data e horário

De 21/03 a 27/06

Terça

14h30, dias 21, 28/3; 4, 11, 18, 25/4; 9, 16, 23, 30/5; 6, 13, 20 e 27/6. Exceto 2/5.

Cronograma de inscrições:

Pré-inscrição online através do link https://centralrelacionamento.sescsp.org.br/

Credencial Plena: a partir das 14h do dia 28/2 (terça-feira) até às 23h59 do dia 2/3 (quinta-feira).

Público Geral: a partir das 14h do dia 8/3 (quarta-feira) até às 23h59 do dia 9/3 (quinta-feira).

Vagas Remanescentes: a partir das 14h do dia 14/3 (terça-feira) até às 23h59 do dia 16/3 (sexta-feira).

Efetivação da inscrição

Após concluir o processo de pré-inscrição online, é possível realizar o pagamento das seguintes formas:

ONLINE:

Acesse o site centralrelacionamento.sescsp.org.br ou, se preferir, baixe o aplicativo CREDENCIAL SESC SP na loja de apps do seu celular (Google Play ou App Store)

PRESENCIAL:

Utilize os totens de autoatendimento disponíveis nas unidades, ou compareça a Central de Atendimento do Sesc Pompeia, para efetivar a inscrição e pagar o boleto referente à primeira parcela do curso, de acordo com o período de sua inscrição.

Obs. A inscrição presencial só será possível durante horário de funcionamento das Centrais de Atendimento das unidades.

Valores:

Credencial Plena – 4 parcelas de R$ 24,00

Meia Entrada (Pessoas com deficiência, aposentados, servidores de escola pública, maiores de 60 anos e estudantes) – 4 parcelas de R$ 40,00

Público Geral e Credencial Atividades – 4 parcelas de R$ 80,00

O pagamento da inscrição garante sua vaga e participação no curso.

uma caixa de luz UV para os novos tempos

então é 2023 e terminei o ano passado fazendo uma nova caixa.

caixa U.V. para tamanho de foto 50x60cm

me pediram um orçamento um belo dia e foi aprovado. Só que as lâmpadas estavam em falta no fornecedor e eu não sabia nem o que fazer. Avisei que demoraria para ficar pronta e tudo bem.

Mas as lâmpadas não chegavam nunca. Tive que buscar outro fornecedor, o que pra mim é um baita risco.

Até o começo de 2022 eu não conseguia nem pensar em aceitar um novo projeto. Mas depois de um tempo consegui me estruturar novamente. Com menos espaço é preciso pensar melhor na logística das etapas.

no meio da coisa toda eu queria fazer meu próprio puxador.

A parte importante era fazer uma caixa para produzir imagens de tamanho 50x60cm. Então todo o desenho foi pensando nesse tamanho. E que ela ficaria embaixo de uma bancada de ampliador com tamanho limitado de 70cm de comprimento. Aí começo com um desenho meio macarrônico e depois vou refinando as características – onde ficam reatores, qual a altura, as medidas finais, a altura de botão, ferragens necessárias. Porque não é uma caixa como um móvel. Essas lâmpadas não são feitas para serem colocadas em caixas completamente fechadas na verdade. Mas é o que eu acabo fazendo :O

O maior risco na minha opinião é deixar os reatores junto às lâmpadas. Característica que eu sempre deixei nas minhas próprias caixas por falta de opção. Mas a verdade é que não é muito bom, então para as caixas das pessoas em geral eu tento deixar em espaço separado. Nas minhas caixas eu deixava junto porque se acontecesse alguma coisa eu estava perto, poderia sanar de alguma forma. Mas caixas para outras pessoas eu não poderia ver os problemas tão logo. A primeira caixa que fiz para alguém tinha vários defeitos (por isso o custo para a pessoa nem foi tão alto, porque era total protótipo e o acabamento também :D)

Neste projeto considerei tentar fazer com leds. Mas verificando projetos dos outros da qual tive contato, percebi que ficaria caríssimo, se fosse pra fazer com a intensidade próxima de uma fluorescente. E o problema do led é que muitas vezes compramos o led numa radiação e nem sempre é aquilo que pedimos. Eu calculei que para ficar com uma qualidade próxima ao tubular devia ter pelo menos 1500 leds. Ou seja, custaria cerca de 6 vezes mais caro ou mais e ainda assim não teria certeza de que ficaria bom.

Fitas de led eu não gosto muito – se fosse para mim é uma outra questão justamente pelo fato de eu poder testar – mas eles queimam exporadicamente então para eu me comprometer com algo assim é bem arriscado. Para quem vai fazer a sua própria caixa é outra situação. Mas se eu cobro para fazer um equipamento e os leds começam a queimar, não tem como eu ficar indo trocar cada um na casa da pessoa e fica super chato também. Minha experiência com led é essa. Não estou dizendo pra não fazer com fita de led, mas que pra eu fazer isso para alguém com esse material pode me dar muitos problemas. E não sei qual a duração dos leds ainda. Tubular pode durar 20 anos tranquilamente.

Leds mais resistentes somente fazendo o circuito e soldando um a um. O que encarece a mão de obra e nem pra mim eu estou muito a fim de fazer isso. Observando caixas com led, notei que são necessários muitos leds pra ficar com o tempo próximo ao tubular. Muitos mesmo.

O tubular a especificação da radiação é garantida. Então para esse projeto foram lâmpadas de 20w de acordo com o tamanho do espaço e da imagem a ser produzida. Para ter certeza de que vai cobrir essa área necessária eu calculo por muito tempo. Pra ter certeza de que vai dar certinho. Por isso demora. porque eu quero ter certeza de que não dará problemas.

detalhe da caixa pronta e funcional

Como escolhi a estrutura. Inicialmente pensei em pedir um mdf resistente à agua e com acabamento já pronto. Não achei pronto com menos de 15mm de espessura. O problema dessa medida é que ficaria muito pesado e para a fotógrafa talvez fosse um problema, se ela precisasse mover, afinal é uma caixa de 70cmx68cm. Então preferi um compensado naval de 10mm e fiz o acabamento com tinta à base de água. Como ficaria dentro de um laboratório e embaixo de uma bancada, considerei a possibilidade de um local mais úmido dessa vez. Nos outros projetos eu vi que essa questão não era um problema. Mas nesse caso sim. E eu tenho um tanto de experiência com umidade e preferi garantir que essa caixa resistisse bem.

porta – estou chegando num método interessante

Como a caixa ficaria num espaço mais baixo e num lugar fixo, optei por um fechamento por imã. Não seria transportada então não precisaria de uma trava muito forte. E coloquei um pistão invertido, que faz com que a porta tenha amortecimento na hora de abrir. O que me fez querer colocar amortecimento em todas as portas da minha casa 😀

eu adooro ferragens!

Um detalhe que eu só formatei no final é de que queria uma respiração para os reatores e por muito tempo procurei grades boas e só esse ano eu encontrei uma solução satisfatória. Consegui uma grade de alumínio para o compartimento dos reatores, que ficam separados das lâmpadas. Como é uma caixa de uso de apenas uma pessoa, uma ventoinha não é extremamente necessária, mas eu teria colocado se eu pudesse saber de antemão como era o lugar onde ela ficaria e também se eu pudesse prever melhor qual o tamanho que eu poderia aumentar para colocar a ventoinha. Como o espaço era limitado não coloquei. Também porque não adiantaria colocar para ficar muito grudado numa parede. Outra questão também era de que eu não sabia se a luz da caixa atrapalharia outras funções do lab, para colocar saída de ar é necessário mais buracos, ou seja, maior vazamento de luz. Eu poderia ter uma conversa muito mais extensa com a pessoa, mas pela foto do lugar já fiquei um bom tempo pensando nessas questões. (Sim! eu penso no espaço para as caixas de forma detalhada, se eu pudesse perguntaria muito mais coisas no projeto mas fico achando que os outros vão me achar meio maluca)

adorei essa grade.
meu toque artesanal. cortada no serrote e lixada. tem uma discreta assinatura minha

E caprichei nos refletores em cima das lâmpadas, cortei um alumínio e reforcei com outro refletor mais brilhante nas bordas. Essa parte eu não costumo tirar foto porque acho feio mesmo. Imaginem nas suas cabeças que vai ficar melhor que qualquer imagem.

essa parte é feia mas queria mostrar que a parte da solda cobri com plástico termoretrátil para proteger as conexões.

Nessa última foto dá pra ver que dessa vez utilizei abraçadeiras. Porque de novo, tamanho limitado, não podia deixar mais alta ainda. Prefiro soquetes já embutidos mas eles deixam a caixa mais alta. E como a medida era pra foto muito grande, qualquer ganho de altura era importante. Eu poderia colocar mais lâmpadas mas precisaria de mais espaço da mesma forma.

Plantas e imagens fotográficas sensíveis

outro dia percebi que escrevi posts de atividades e esqueci nos rascunhos :/ :/ :/

Uma delas era sobre uma atividade que teve no Sesc Interlagos sobre anthotype.

Então pensei em escrever um pouco sobre esse processo, que já errei muito e já acertei um tanto.

Mas antes vou anunciar o novo livro na qual participo com uma contribuição junto a Simone Wicca, iniciativa de Malin Fabbri do site http://www.alternativephotography.com

É uma grande honra e um prazer, já que o site me ajudou muito desde o início das minhas empreitadas foto-alternativas.

O termo emulsões talvez seja um pouco fora do que é na verdade. Não seria bem uma emulsão que preparamos para um antotipo, mas acho que vale a carga histórica da fotografia.

O tema era Esperança. Na hora pensei na Caixa de Pandora, que parecia se encaixar um tanto com a questão pandêmica. Simone também curtiu a ideia. Mas queríamos que a esperança saísse da caixa. Nosso trabalho foi feito com o uso de serragem de pau brasil. Afinal é uma pesquisa que tenho feito bem lentamente, a respeito do uso de plantas nativas e também de plantas tintureiras.

Quinze anos se passaram desde que fiz minhas primeiras experiências com plantas. E acho que esse blog começou um pouco antes disso. Vou dizer que as minhas primeiras impressões em relação ao anthotype não mudaram tanto desde então. Tecnicamente. Mas pude ver e acompanhar muitas pessoas a descobrirem esse processo, principalmente agradeço ao Sesc por me dar essa oportunidade na maioria das vezes. Quando comecei de forma rebelde a pesquisar sobre essa vertente efêmera não tinha a menor ideia de que viraria trabalho. E sempre a Simone foi minha amiga que me empurrou para muitas coisas legais, como essa participação no livro.

Vou explicar um pouco sobre meu percurso. Era um momento em que eu perdi muita coisa numa graduação que me deixava apaixonada todo dia pela fotografia. Mas de repente perdi minha orientadora, que foi demitida. Aos poucos queriam retirar o laboratório preto e branco e colorido e os processos alternativos, com a alegação de que a fotografia seria apenas a imagem digital.

Então meu trabalho foi a respeito dos processos com plantas e sobre a efemeridade da vida e talvez até da imagem digital. Comecei meu texto citando Marx. As imagens eram sobre objetos que seriam substituídos por outros (câmera de filme), imagens de álbum de família, lugares que de certa forma foram abruptamente tomados de mim.

E depois de um pouco mais de pesquisa também pelo site alternative photography cheguei no nome de Mary Somerville, que amiga de John Herschel, troca correspondências com ele a respeito do processo. Só que em nos textos sobre o processo dificilmente seu nome aparece. Porque nesse momento as mulheres não podiam publicar estudos científicos.

Enfim me faz pensar em muitas questões sobre a mulher e a produção artística e cultural. Mas isso é tema para outra conversa, porque vai ser longo.

E enquanto eu colocava meus primeiros antotipos em cima do telhado eu ficava me perguntando o que os vizinhos iam entender se explicasse para eles. É muito fora da realidade, é coisa de gente estranha? Estudei 4 anos pra usar plantas pra fazer foto. Tô subindo no telhado pra fazer meu trabalho de conclusão.

O fato é que essa pesquisa começou com uma curiosidade e parecia algo simples de ser produzido e um conceito interessante para um primeiro contato com a ideia da formação da imagem fotossensível.

E no final acredito que seja uma ótima ferramenta para se pensar nas imagens num mundo em que vivemos conectados com a tecnologia e que as fotografias são tão instantâneas que não é preciso mais fazer nada além de deslizar os dedos pela tela de um celular para fazer ou modificar muitas imagens.

Outro dia mesmo recebi mais de cem fotografias de um treino e só guardei três.

E essa imagem fotossensível que volta o olhar para as plantas. Eu sempre ouço nas aulas que depois de ter o contato com a técnica as pessoas começam a olhar mais para as plantas na rua. Pensam se vai dar certo, experimentam. Põem-se a perceber as texturas e os cheiros. Analisam as formas e espessuras das folhas. As cores das flores começam a ter outro sentido.

E para começar a estudar o processo comecei a estudar algo além da comida, plantas não convencionais e das plantas nativas. Pensar na posição do sol no meu dia a dia, para saber quanto tempo de sol bate na janela.

Pessoas muito ansiosas precisam fazer um esforço um pouco maior para produzir imagens tão lentas. É um desafio e ao mesmo tempo um exercício de auto controle. Tentar dominar esse tempo dentro de si.

O momento mágico desse processo não é o aparecimento da imagem aos nossos olhos, como quando vemos a fotografia surgir no revelador, mas a noção de que a imagem surgiu a partir das plantas, naquele papel que colorimos com um sumo e que escancara essa reprodutibilidade ou em cima de uma folha de planta.

Quando iniciei esse estudo eu ampliava as imagens em fotolito. Ou filme gráfico. Com algumas experiências vi que a imagem bem densa seria melhor para obter algum detalhamento a mais no processo. Por isso busquei fórmulas específicas para fotolito (kodalith) e preparei um revelador próprio. Hoje em dia envio o material para a gráfica para fazer o fotolito, já que esse material que eu utilizava no laboratório não é mais fabricado.

Post a atualizar – tem muita coisa pra escrever, vou fazendo aos poucos 🙂

As experiências que não cabem num blog

acontece tanta coisa no cotidiano de uma pessoa lenta como eu que não consigo dar conta de me expressar a tempo.

Nesses tempos pandêmicos me peguei pensando e me cobrando muitos erros e quando voltaram as atividades presenciais eu fiquei num misto de insegurança e timidez junto com alívio e vontade de ver as pessoas. E digo que deu alívio de ver até quem eu não gostava. E mesmo não gostando muito de alguém tenho tentado entender mais esses outros personagens da nossa vida.

As últimas atividades que realizei foram tão interessantes que gostaria de compartilhar um pouco por aqui. Não que as atividades passadas não fossem, só que percebi que não escrevo muito sobre o que fiz.

A primeira viagem mais longa que fiz depois do começo da pandemia foi para Registro, para o curso especial de fotografia no programa do Curumim de lá. Eu gosto de Registro porque foi em 2016 que a unidade do Sesc inaugurou no prédio do KKKK e fomos fazer oficinas de fotografia. Poucos meses antes de fechar o trabalho eu tive um sonho. No sonho eu viajava para o Japão e era noite, chegava naquele lugar diferente. Só que chegando no hotel tinha um Sesc. Daí eu pensei – uau, tem Sesc no Japão! 🙂 Poucos meses depois fui parar em Registro, que tem muita influência dos imigrantes japoneses. Quando lembrei do sonho achei muito divertido.

E no Curumim a proposta era atividade pinhole para comemorações do aniversário de cem anos do prédio KKKK. Fizemos fotografia com latinhas junto a fotografia de celular para as crianças de 7 a 12 anos.

o portal indica o local por onde desembarcaram os imigrantes japoneses

Apesar de ter sido construído para uso dos imigrantes japoneses o projeto segue uma estética inglesa e foi projetado por um argentino. Nos dias de foto pinhole choveu muito e não deu para explorar tanto ângulos e distâncias. Quando percebemos que a semana seria de muita chuva, preparamos de backup os tubinhos de filme, que deveriam ter um tempo menor de exposição comparado às latas que temos, de cerca de seis centímetros de diâmetro.

O Sesc Registro KKKK

Com crianças, com chuva, com pinhole – a tarefa não seria fácil, ainda mais revelando com apenas uma pequena caixa de revelação. Deixamos os furos de agulha um pouco maiores e testamos tudo antes. Mesmo assim uma ou outra foto não saiu.

O que usamos para a atividade pinhole:

  • caixa de revelação – feita por mim. Parece uma casinha de gato. 🙂
  • bandejas e pinças para revelador e fixador (não tem espaço para interruptor)
  • latinhas prontas pinhole – essas compramos a lata, furamos, pintamos, fizemos furo em alumínio e vedamos bem.
  • papel Ilford PB – neste caso foi o brilhante, porque é mais fácil de sentir qual o lado certo sem enxergar a superfície lisa. pré cortado, guardado em caixa pequena.
  • Revelador e fixador – eu que fiz – Dektol e F24 – podia ser parodinal e outro fixador
  • lâmpada vermelha – porque para carregar as câmeras e testar usamos o quarto do hotel mesmo como laboratório. coloquei o cobertor na janela – que não tinha blackout – ligamos a lâmpada meio longe e ficamos no chão para revelar. Se fosse fazer tudo na caixa demoraria muito.

As aulas eram terças e quintas, então tinha a quarta para fazer ajustes e consertar alguma coisa. Só à noite tinha uma aula de fotografia de celular para empresas então dava pra revisar e se preparar para essa aula durante a tarde.

A construção da pinhole pode ser feita de forma bem lúdica, só fazendo furo de agulha, vedando qualquer outra entrada de luz e pronto. No entanto, para ter um controle dos resultados e não ter muitas decepções pode-se calcular o tamanho de acordo com a distância entre o furo e o plano em que ficará o papel. Existem diversas tabelas de cálculos. Mas toda vez que falo de cálculos nas aulas de fotografia tem gente que já começa a tremer o olho, ter tique, até esquece de respirar. (no começo achava isso muito fora do comum, porque meu irmão era da física e minha irmã se fala uns números perto dela, porcentagens, ela já calcula tudo de cabeça quase nunca precisa de calculadora.)

latinhas em cima da caixa de revelação. Elas apontam para Shakira – Ela quem dá a vez da fala do Curumim

E na atividade estava projetada a fotografia com celular. O que achei curioso é que pensei que as crianças fotografavam muito mais com um celular mas percebi que no caso dessa turma não era bem assim.

quando vê a imagem positiva achou mágica de novo

Ao explicar sobre essa fotografia as respostas sobre o funcionamento foram relacionadas às ciências por alguns. Outros diziam que era mentira, que a gente colocou uma imagem no papel antes, mágica. Essa relação ciência / misticismo – nem vou me ater a isso. Só que quando eu voltei pra São Paulo eu percebi que errei. Em nenhum momento elas viram a imagem como arte e eu não enfatizei isso.

Porque falando em arte fiquei procurando nas horas vagas algum lugar que vendesse a produção local da cidade, artesanal ou produção da própria cidade, já que o Mercado Municipal estava em reforma. Foi difícil achar alguém que soubesse que eu não queria coisas da China… da primeira vez que fui à cidade encontrei uma loja que vendia o chá produzido na região porém não me recordava onde era. Depois encontrei!

Imagem do Google – não tem mais a plaquinha mas tem a loja ainda sim

A Casa Watanabe fica ao lado do Sesc. A placa não existe mais e a loja fica aberta por poucas horas por dia. Os donos estão bem idosos e as filhas cuidam deles. Lá encontrei o chá artesanal da região.

achados da Watanabe – tem muita banana em Registro – a fruta que mais gosto

É uma família incrível. Dona Conceição tem uns 90 anos e adora drama coreano. Ela e sua filha Ana viraram minhas amigas em poucas horas de conversa e já tenho saudades delas. Todos os filhos de Conceição têm alguma relação com arte; desenham, pintam, tocam instrumentos musicais mas nunca seguiram profissionalmente.

Ela diz que odeia o balcão (da loja) porque passou muito tempo lá. Eu entendo. Quando a gente se sente preso a algo que não gosta é como um enclausuramento. Ana disse que quando os pais falecerem ela não vai querer mais tocar a loja. Por um lado não deixa de ser uma perda, pois o local parece quase um patrimônio da cidade. Mas posso compreender sua decisão.

No meio disso estava com a atividade de Retratos em Pinhole no Sesc Bom Retiro aos sábados, 10 e 24 de setembro. Este último seria Dia do Cianotipo e planejava fazer algo junto a Simone mais uma vez.

Aí encontrei a loja Das Manas, produtos regionais do Vale.

então dia 17 poderíamos fazer o cian já que dia 24 voltaria ao Bom Retiro para a atividade ligada à expo do Penna.

Eu levei a câmera Fa pra fotografar comigo. A pinhole de madeira. Como eu sabia que não teria muita luz, tive que fazer umas adaptações nela, senão o tempo de exposição seria catastrófico.

Tive que modificar o pinhole e aumentar bastante a entrada de luz. Compremeteria a nitidez mas era ambiente interno e eu sabia que mesmo com luz artificial seria bastante tempo de exposição.

Arte também salva. ela tem me salvado 🙂

Era para ser realizada na entrada da unidade só que alteraram o local. Por isso imaginei que eu tivesse menos luz do que o espaço principal. E foi isso mesmo. Apesar de parecer que não, a intensidade de luz era bem menor. Tenho optado por aproveitar o máximo a luz do sol possível nesse retorno pós começo de pandemia. Antes eu levava fontes de luz muito fortes, mas as pessoas se assustavam muito com a luz do flash.

Quinze segundos

Bom, sobre o cian com a Simone, ficará para o próximo post. Essa acima foi a última foto da atividade no Bom Retiro. Vieram dois amigos e tirei a foto dos dois. Depois um resolveu que queria dar uma foto para a avó, acho, e mais uma para a namorada. Então tirei fotos individuais. Eles ficaram super empolgados em fazer as fotos e ficaram próximo na hora da revelação. Na pressa, acabei riscando um pouco a chapa. O RX risca fácil.

Esse primeiro contato com a imagem analógica e um tanto experimental sempre me traz as mesmas frases em locais diferentes. Sempre ouço algo do tipo “foto antiga” ou “como era antigamente”. Mas das crianças eu não ouço esse tipo de frase. É um descobrimento, algo novo, fora do comum. E quando alguém fala que algo é antigo percebo que fico o dia todo pensando. O que é antigo?

Queria poder ter mostrado a eles a revelação na luz vermelha, que nessa atividade nem luz vermelha teve. Revelei dentro de um tanque escuro a imagem das pessoas que foram atingidas pela luz num determinado momento em determinado espaço e espero tê-las atingido de alguma forma, não somente como a pessoa que faz umas fotos antigas (que estão sendo feitas naquele momento, então não entendo a palavra antiga). Como essa fotografia nunca saiu de mim eu não entendo dessa forma.

Eu espero que a experiência de ser fotografado e mesmo que numa atividade tão rápida sobreviva na memória e que em algum momento isso ajude a pensar e refletir sobre a própria vida, o tempo e talvez no próprio eu.

Cianotipia no Sesc Itaquera

Sábado dia 01/10/2022 tem oficina de cianotipia de manhã, das 9:30h a 12h.

Ontem o link de inscrição não estava funcionando, mas estou tentando verificar isso com a programação. https://www.sescsp.org.br/programacao/foco-vivo-cianotipia-e-natureza/

A ideia é fazer uma estampa na sacola de algodão com as plantas da unidade. Assim já leva pra casa um ciano para transportar coisas 🙂

Retratos Pinhole e Curumim em Registro

Hoje estou aqui para uma notícia urgente. Vai ter sábado uma atividade no Sesc Bom Retiro em que farei retratos em pinhole, dias 10 e 24/09 das 12h às 16h – sendo que a última hora é mais pra eu revelar e o pessoal pode buscar depois.

É uma atividade ligada à exposição do Penna Prearo que está acontecendo na unidade. Me procuraram para fazer uma oficina de pinhole e baseado na info de que teria a expo dele, pensei em fazer retratos, primeiro porque eu gosto de retratos, segundo porque algum tempo atrás Penna e Guilherme Maranhão faziam uma intervenção que era fotografar as pessoas em raio X e os retratados eram convidados a serem retratados com sacos de papel na cabeça. Minha ideia é de fotografar as pessoas em pinhole e depois o retratado vai buscar a foto. Mas ela tem que se reconhecer no meio dos negativos expostos no varal. Será que dá certo? Não deixa de ser um exercício e uma brincadeira.

Vamo trabalhar Fa
Está com obturador de Holga

Ganhei a frente de uma Holga e acoplei nela. Hoje terminei os detalhes e parafusei tudo. Amanhã vou testar a luz que preciso para iluminar as pessoas. E sobre essa modificação ainda vou escrever mais, já que estou terminando algumas adaptações em câmeras de madeira.

Outra atividade mas que não será aberta ao público acontece em Registro – SP. Junto com o Edison Angeloni faremos atividades em comemoração ao aniversário do prédio KKKK onde funciona o Sesc Registro e serão aulas de pinhole para o programa Curumim. Aliado a ideia da imagem estenopeica vamos utilizar o celular e falar um pouco sobre algumas possibilidades da tecnologia em smartphones. Ministraremos também aulas de fotografia de celular para empresas parceiras do Sesc.

Fomos a esse Sesc quando inaugurou e fizemos duas atividades para o público. E retornar a unidade para um especial voltado a arquitetura do espaço é algo que me deixa muito feliz, já que tem a ver com a história do local.

Fico contente quando alguém me diz que procura alguma informação e acha meu blog. Melhor ainda é quando alguém me mostra que fez algo a partir das informações aqui e deu certo! Nos últimos meses foram três situações em que comentaram sobre o blog. Eu preciso rever o que já postei e verificar o que está faltando, o que farei após outubro.

Agosto começou com tudo

E me atrasei pra postar aqui.

Tive um problema no meu computador e pra postar do celular é meio estranho. Mas estou tentando 😯😀 (eu falando waaa)

Amanhã já abrem as inscrições para os cursos do Sesc Pompéia. https://www.sescsp.org.br/cursos-regulares-das-oficinas-de-criatividade-retomam-este-mes/

E vai ter curso em Campinas agora dia 11/08 https://www.sescsp.org.br/programacao/experimentacoes-com-marrom-van-dyke-e-lumen-print/

Imagens em pau-brasil – anthotype

Enquanto pesquisava sobre plantas e pancs e fazer algum trabalho que tivesse algum significado pra mim, resolvi utilizar plantas nativas do Brasil para a produção de antotipias. Vez ou outra comento nas aulas, nos cafés e encontros com as pessoas que para o processo cheguei a estudar um tanto de tingimento natural e acho que nessa pesquisa de procurar comida, cor e verdade com significado só fazia sentido pesquisar o nativo.

Então num curso online resolvi investir no pau-brasil. Até então tive mudas dele mas não tinha pensado em usar para o anthotype. Comprei uma serragem e fiz alguns testes. É tão bonito que dá vontade de sair colorindo tudo mesmo.

Não lembro se comentei que papéis diferentes dão cores diferentes. Tem a ver com ph do papel. Peguei dois papéis abandonados no lab e passei o sumo.

Mesmo sumo. Papéis diferentes

A parte desvantajosa de utilizar papéis abandonados é que depois pra fazer de novo é quase impossível. Os papéis não eram meus e ficaram pelo menos uns três anos numa gaveta. Essa questão do pH é algo que sempre comento na aula mas muitas vezes eu acho que as pessoas só percebem quando vêem o resultado, ou seja, a cor.

Então montei esses com imagens.

No estúdio não tenho sol direto. Então deixo na janela um tempo e quando lembro vou olhar.

Seis dias depois retirei a imagem da esquerda.

Dá pra ver a diferença de cor apesar das imagens não estarem calibradas (foto de celular né)

E o resultado

O outro papel ainda está no sol. Fotografei hoje pra saber como estava, só que ainda está em processo.

vou deixar mais uns dias 🙂

Esse mês de julho vai ter oficina, em breve volto aqui.

Fico me perguntando certas vezes sobre essa produção de antotipias quando alguém aponta a durabilidade da fotografia. Afinal foi uma questão pontuada no meu TCC de graduação. Nossas imagens efêmeras nos cercam todo dia. Nos stories de Instagram, daquelas que a gente nunca mais vai ver se não clicar naquele dia.

As imagens da cidade que se alteram constantemente e logo um graffiti ou luminoso pode ser trocado ou substituído. As nossas paisagens diárias mudam conforme mudamos de endereço. E todo dia não sinto que continuamos os mesmos.

à tona, um homem desafogado.

Eu e minhas ideias com os processos injustiçados.

No entanto é tão importante pra mim, que se eu tivesse que escolher novamente entre um processo mais famoso e outro pouco conhecido, definitivamente continuaria com este último.

E faz muitos anos que pesquiso e demora para juntar as coisas e tempo para trazer à luz alguma imagem.

E esse ano eu quis buscar o positivo direto de Bayard. Passaram-se alguns anos que pesquisei e já com alguma experiência em positivos com papel fotográfico, queria testar e quase não durmo pensando no que poderia acontecer. Fiquei um dia desses escrevendo sobre meus projetos e é isso. Positivos foram uma necessidade em atividades rápidas para retratar pessoas. Ao mesmo tempo em que estava cansada de gerar negativos para guardar. (eu sei é estranho) Explico. Quando eu faço retratos das pessoas gera uma quantidade enorme de negativos. Ora a pessoa me pede pra levar os negativos. Ok, eu posso entregar. Mas quando serão utilizados novamente? E mais importante, serão bem acondicionados? Ora eu ficava com os negativos para fazer meu arquivo. Mas com mudanças eu não consegui guardar tudo. O positivo resolve a situação porque retira a etapa de ainda fazer a cópia, ou seja, demora menos, não tem negativo matriz, um passo a menos. Eu reproduzo mesmo que seja digitalmente a imagem e tenho meu arquivo. E não fico triste pensando que o negativo estará jogado no armário, na maioria das vezes.

Então revisitei a pesquisa de Tania Passifiume que escreveu um artigo sobre o positivo de Bayard em inglês, cujo link não achei recentemente, mas eu tinha anotado.

Positivo em papel Marker

A captação em câmera ainda demora muito. Então fiz cópias de positivos para entender o contraste e o processo. Agora vou tentando ajustar a fórmula para tempos menores de exposição. Depois penso em desenvolver a ideia de algum retrato.

Sobre o título do post é uma brincadeira com a imagem icônica de Bayard. Gostaria que a história tivesse sido mais justa com esses inventores. Me parece que o mundo que buscava cada vez mais invenções comercialmente viáveis não parecia querer entender a genialidade de cientistas e artistas, ou simplesmente de alguém que pesquisa por amor ou seja lá como chama essa vontade de criar e descobrir.