Da última vez que encontrei o Athos do FFV – Festival dos Filmes Vencidos – fui incumbida a fazer testes com um filme Orwo, um microfilme, não perfurado e bem vencido. Com muita ajuda do meu amigo Maranhão – sem ele eu ia ficar batendo a cabeça por mais uma semana – e gastar pelo menos mais alguns metros.
Para quem quiser adquirir o filme, o Athos tem. Vou colocar aqui as minhas considerações
aqui o famoso
Não encontrei nada sobre ele na internet, somente sobre o MA8. A previsão era de que fosse ISO3, mas vencido em 93 devia ficar ISO1 com muito otimismo. A questão é que está com a base muito escura já, então fica bem escuro revelando normal. fiz 8 testes de formas diferentes.
O microfilme não é perfurado então não dá pra usar em qualquer câmera. Minha Nikon não puxa de forma alguma, usei uma fita adesiva para avançar o filme, mas achei muito perigoso estragar algo. Usei uma Fujica e funcionou melhor, maas por vezes não avança e faz sobreposições. Além de que fica muito dura pra avançar, ou seja, vai acabar forçando demais a cam. Sei que existem poucos modelos possíveis, mas não acho que seja prático procurar pelo modelo específico para usar um filme tão específico.
A forma mais segura pra mim foi colocar em bobinas 120 e fotografar com a médio formato, a imagem fica mais panorâmica, com um recorte um pouco diferente do que se está acostumado.
Agora a revelação. Com o D76 em tempo normal fica só escuridão. Achei em algum momento que até estava perdido, mas testei com Microphen e funcionou melhor. Mas muito escuro. Por isso resolvi fazer um teste com um outro microfilme que eu tinha aqui, da Kodak, e ele ficou muito bom em exposição a ISO 3 a 25. A partir desse percebi que o teste deveria ser diferente, expor mais. revelar beeem menos.
Com esse Orwo fiz duas coisas que me deram esperança. 1- revelei com Dektol 1 minuto com agitação forte. E 2- revelei com Microphen 2 minutos. O primeiro deu muito mais certo. O segundo ficou com a base ótima, mas sem muita informação. A partir disso tirei a conclusão inicial de que pra algo mais fácil, o Dektol funciona bem. Fotografar em ISO 1. No Microphen 6 minutos foi demais, mas ainda assim tem um bom resultado – pra um filme tão vencido – depois testarei com 4 minutos e um pouco de benzotriazol.
Dektol 1 minuto. A imagem tinha umas luzinhas mesmo, por isso ficou com essas manchinhas. preciso refazer com ISO1, esse foi em ISO3. Não me preocupei com a digitalização, a imagem foi uma má escolha. Mas revelar por pouco tempo deu manchas então deve funcionar uma agitação bem forte.Microphen 6 minutos. Ficou bem denso, por isso eu mudaria o tempo e adicionaria o benzo. Ignorem as cenas, foram tantas vezes fotografando e dando errado que chegou um momento que parei de ficar saindo para fotografar fora.
Por hora está assim, mas acho que tem potencial para ficar melhor. Eu quero testar outro reveladores para ver se o filme gosta mais. 🙂
acontece tanta coisa no cotidiano de uma pessoa lenta como eu que não consigo dar conta de me expressar a tempo.
Nesses tempos pandêmicos me peguei pensando e me cobrando muitos erros e quando voltaram as atividades presenciais eu fiquei num misto de insegurança e timidez junto com alívio e vontade de ver as pessoas. E digo que deu alívio de ver até quem eu não gostava. E mesmo não gostando muito de alguém tenho tentado entender mais esses outros personagens da nossa vida.
As últimas atividades que realizei foram tão interessantes que gostaria de compartilhar um pouco por aqui. Não que as atividades passadas não fossem, só que percebi que não escrevo muito sobre o que fiz.
A primeira viagem mais longa que fiz depois do começo da pandemia foi para Registro, para o curso especial de fotografia no programa do Curumim de lá. Eu gosto de Registro porque foi em 2016 que a unidade do Sesc inaugurou no prédio do KKKK e fomos fazer oficinas de fotografia. Poucos meses antes de fechar o trabalho eu tive um sonho. No sonho eu viajava para o Japão e era noite, chegava naquele lugar diferente. Só que chegando no hotel tinha um Sesc. Daí eu pensei – uau, tem Sesc no Japão! 🙂 Poucos meses depois fui parar em Registro, que tem muita influência dos imigrantes japoneses. Quando lembrei do sonho achei muito divertido.
E no Curumim a proposta era atividade pinhole para comemorações do aniversário de cem anos do prédio KKKK. Fizemos fotografia com latinhas junto a fotografia de celular para as crianças de 7 a 12 anos.
o portal indica o local por onde desembarcaram os imigrantes japoneses
Apesar de ter sido construído para uso dos imigrantes japoneses o projeto segue uma estética inglesa e foi projetado por um argentino. Nos dias de foto pinhole choveu muito e não deu para explorar tanto ângulos e distâncias. Quando percebemos que a semana seria de muita chuva, preparamos de backup os tubinhos de filme, que deveriam ter um tempo menor de exposição comparado às latas que temos, de cerca de seis centímetros de diâmetro.
O Sesc Registro KKKK
Com crianças, com chuva, com pinhole – a tarefa não seria fácil, ainda mais revelando com apenas uma pequena caixa de revelação. Deixamos os furos de agulha um pouco maiores e testamos tudo antes. Mesmo assim uma ou outra foto não saiu.
O que usamos para a atividade pinhole:
caixa de revelação – feita por mim. Parece uma casinha de gato. 🙂
bandejas e pinças para revelador e fixador (não tem espaço para interruptor)
latinhas prontas pinhole – essas compramos a lata, furamos, pintamos, fizemos furo em alumínio e vedamos bem.
papel Ilford PB – neste caso foi o brilhante, porque é mais fácil de sentir qual o lado certo sem enxergar a superfície lisa. pré cortado, guardado em caixa pequena.
Revelador e fixador – eu que fiz – Dektol e F24 – podia ser parodinal e outro fixador
lâmpada vermelha – porque para carregar as câmeras e testar usamos o quarto do hotel mesmo como laboratório. coloquei o cobertor na janela – que não tinha blackout – ligamos a lâmpada meio longe e ficamos no chão para revelar. Se fosse fazer tudo na caixa demoraria muito.
As aulas eram terças e quintas, então tinha a quarta para fazer ajustes e consertar alguma coisa. Só à noite tinha uma aula de fotografia de celular para empresas então dava pra revisar e se preparar para essa aula durante a tarde.
A construção da pinhole pode ser feita de forma bem lúdica, só fazendo furo de agulha, vedando qualquer outra entrada de luz e pronto. No entanto, para ter um controle dos resultados e não ter muitas decepções pode-se calcular o tamanho de acordo com a distância entre o furo e o plano em que ficará o papel. Existem diversas tabelas de cálculos. Mas toda vez que falo de cálculos nas aulas de fotografia tem gente que já começa a tremer o olho, ter tique, até esquece de respirar. (no começo achava isso muito fora do comum, porque meu irmão era da física e minha irmã se fala uns números perto dela, porcentagens, ela já calcula tudo de cabeça quase nunca precisa de calculadora.)
latinhas em cima da caixa de revelação. Elas apontam para Shakira – Ela quem dá a vez da fala do Curumim
E na atividade estava projetada a fotografia com celular. O que achei curioso é que pensei que as crianças fotografavam muito mais com um celular mas percebi que no caso dessa turma não era bem assim.
quando vê a imagem positiva achou mágica de novo
Ao explicar sobre essa fotografia as respostas sobre o funcionamento foram relacionadas às ciências por alguns. Outros diziam que era mentira, que a gente colocou uma imagem no papel antes, mágica. Essa relação ciência / misticismo – nem vou me ater a isso. Só que quando eu voltei pra São Paulo eu percebi que errei. Em nenhum momento elas viram a imagem como arte e eu não enfatizei isso.
Porque falando em arte fiquei procurando nas horas vagas algum lugar que vendesse a produção local da cidade, artesanal ou produção da própria cidade, já que o Mercado Municipal estava em reforma. Foi difícil achar alguém que soubesse que eu não queria coisas da China… da primeira vez que fui à cidade encontrei uma loja que vendia o chá produzido na região porém não me recordava onde era. Depois encontrei!
Imagem do Google – não tem mais a plaquinha mas tem a loja ainda sim
A Casa Watanabe fica ao lado do Sesc. A placa não existe mais e a loja fica aberta por poucas horas por dia. Os donos estão bem idosos e as filhas cuidam deles. Lá encontrei o chá artesanal da região.
achados da Watanabe – tem muita banana em Registro – a fruta que mais gosto
É uma família incrível. Dona Conceição tem uns 90 anos e adora drama coreano. Ela e sua filha Ana viraram minhas amigas em poucas horas de conversa e já tenho saudades delas. Todos os filhos de Conceição têm alguma relação com arte; desenham, pintam, tocam instrumentos musicais mas nunca seguiram profissionalmente.
Ela diz que odeia o balcão (da loja) porque passou muito tempo lá. Eu entendo. Quando a gente se sente preso a algo que não gosta é como um enclausuramento. Ana disse que quando os pais falecerem ela não vai querer mais tocar a loja. Por um lado não deixa de ser uma perda, pois o local parece quase um patrimônio da cidade. Mas posso compreender sua decisão.
No meio disso estava com a atividade de Retratos em Pinhole no Sesc Bom Retiro aos sábados, 10 e 24 de setembro. Este último seria Dia do Cianotipo e planejava fazer algo junto a Simone mais uma vez.
Aí encontrei a loja Das Manas, produtos regionais do Vale.
então dia 17 poderíamos fazer o cian já que dia 24 voltaria ao Bom Retiro para a atividade ligada à expo do Penna.
Eu levei a câmera Fa pra fotografar comigo. A pinhole de madeira. Como eu sabia que não teria muita luz, tive que fazer umas adaptações nela, senão o tempo de exposição seria catastrófico.
Tive que modificar o pinhole e aumentar bastante a entrada de luz. Compremeteria a nitidez mas era ambiente interno e eu sabia que mesmo com luz artificial seria bastante tempo de exposição.
Arte também salva. ela tem me salvado 🙂
Era para ser realizada na entrada da unidade só que alteraram o local. Por isso imaginei que eu tivesse menos luz do que o espaço principal. E foi isso mesmo. Apesar de parecer que não, a intensidade de luz era bem menor. Tenho optado por aproveitar o máximo a luz do sol possível nesse retorno pós começo de pandemia. Antes eu levava fontes de luz muito fortes, mas as pessoas se assustavam muito com a luz do flash.
Quinze segundos
Bom, sobre o cian com a Simone, ficará para o próximo post. Essa acima foi a última foto da atividade no Bom Retiro. Vieram dois amigos e tirei a foto dos dois. Depois um resolveu que queria dar uma foto para a avó, acho, e mais uma para a namorada. Então tirei fotos individuais. Eles ficaram super empolgados em fazer as fotos e ficaram próximo na hora da revelação. Na pressa, acabei riscando um pouco a chapa. O RX risca fácil.
Esse primeiro contato com a imagem analógica e um tanto experimental sempre me traz as mesmas frases em locais diferentes. Sempre ouço algo do tipo “foto antiga” ou “como era antigamente”. Mas das crianças eu não ouço esse tipo de frase. É um descobrimento, algo novo, fora do comum. E quando alguém fala que algo é antigo percebo que fico o dia todo pensando. O que é antigo?
Queria poder ter mostrado a eles a revelação na luz vermelha, que nessa atividade nem luz vermelha teve. Revelei dentro de um tanque escuro a imagem das pessoas que foram atingidas pela luz num determinado momento em determinado espaço e espero tê-las atingido de alguma forma, não somente como a pessoa que faz umas fotos antigas (que estão sendo feitas naquele momento, então não entendo a palavra antiga). Como essa fotografia nunca saiu de mim eu não entendo dessa forma.
Eu espero que a experiência de ser fotografado e mesmo que numa atividade tão rápida sobreviva na memória e que em algum momento isso ajude a pensar e refletir sobre a própria vida, o tempo e talvez no próprio eu.
Na continuação das câmeras pinhole de madeira portuguesa, o próximo capítulo seria mostrar a reforma da Fá (a câmera para chassi 4×5) mas a verdade é que minha “oficina de marcenaria” inexiste e cada semana me deparo com algum desafio estrutural
Um belo dia eu olhei para a Roque, largada na minha bancada tentando respirar em meio ao pó e percebi que eu estava demorando muito para testar sua visão.
A Roque (Ro) foi feita para fotografar com polaroid, segundo a Fátima. Então como não deixa de ser uma homenagem que faço a ela, eu precisava terminar o projeto do jeito que deve ser. Para quem não leu os posts sobre a câmera de madeira portuguesa, essas câmeras eram de uma fotógrafa, Fátima Roque, que mandou fazê-las em Portugal e foram feitas por um artesão de lá. Mas elas nunca foram terminadas pois tinham alguns erro de projeto e a Fátima deixou as câmeras comigo e eu disse que ia consertar. Minha intenção era consertar para ela usar. Eu não imaginava que eu não ia conseguir retornar as pinholes para a Fátima, que faleceu alguns anos atrás e fiquei um tempo sem saber o que fazer.
Um dia achei que seria um desperdício ficar só na tristeza com as câmeras inacabadas e então tudo que faço com elas é uma intenção de continuar viva a memória dessa fotógrafa e prestar de algum modo uma homenagem.
ela é quase quadrada, o que dificulta um pouco o projeto
A dificuldade com essa câmera é que a proporção é muito diferente para um back polaroid. Eu teria que preencher um espaço de tal forma que não prejudicasse seu design de câmera artesanal. Coisa que eu ainda não consegui resolver.
Mas segui a mesma linha de pensamento para a Fa, de testar a câmera provisoriamente e ver se é necessário o ajuste de distância. Cortei uma parte dela, fiz uma parte de foamboard e encaixei o back com fita isolante. O furo feito na madeira é muito pequeno para uma parede tão grossa. Tive que aumentar a abertura de um jeito não muito bonito e fiz um pinhole provisório.
penso em cortar uma peça circular para a frente e fazer um furo em alumínio preto. mas por hora serve assim
Fiz o cálculo de distância entre o filme e furo, calculei a tabela de exposição e carreguei o chassi polaroid. Eu ainda tenho um Fp100C para back hasselblad. São meus últimos filmes. Depois disso acabou pra sempre provavelmente. Talvez eu converta para um back médio formato da mamiya ou para chassi de grande formato, já que a chance de conseguir mais pola é quase nula.
primeira foto
O dia estava nublado e o filme já está vencido. Por isso o desvio de cor eu já esperava ser grande. Conta também que pode estar entrando luz em alguma parte da câmera e isso pode afetar a cor. Deixei um minuto e meio e claro que eu não queria nem ficar com a cabeça parada esse tempo todo.
Temperatura 20 graus, a revelação é de 2 minutos. Só puxar a lingueta e esperar. Fiquei bem feliz com o resultado apesar de estar escuro, porque o dia estava bem escuro e chovendo muito. Eu precisava de algo pra me dar algum ânimo, já que esse ano não foi nada fácil.
fui no Parque Augusta para fotografar com ela.
Resolvi testar mais um dia. Mas novamente estava chovendo e nublado. Ainda assim quis testar e fui pra rua.
Parque vazio.resultado.
Um minuto de exposição, 2 minutos de revelação a 20 graus. Agora vou testar com um filtro laranja ou magenta pra cortar um pouco desse azul e coloco mais fotos aqui. Eu queria colocar o passo a passo de como modifiquei mas ainda estou nesse processo de ao mesmo tempo não ter um lugar de trabalho definitivo e ficou com um projeto de câmera impreciso e bagunçado. Testando materiais e etc. Estou pensando em terminar com partes de aço ou alumínio. Uma indecisão sem fim
Hoje escrevo um pouco sobre duas portuguesas. As câmeras pinhole (que deveriam ser pinhole) que recebi da Fátima Roque. Vou começar pelas câmeras.
Esta é a Roque, da esquerda. Da direita é minha pinhole polaroid.Esta é a Fátima. Junto com o chassi de 4×5 para a qual ela foi feita.
Até onde sei ela não chegou a usar, porque as duas estavam com dois problemas de cálculo. E perfeccionista do jeito que era, acho que ela sofreu quando viu que estavam com problemas. Digo que deveriam ser câmeras pinhole (entre parênteses lá em cima) porque não foram completadas. Faltavam detalhes, ainda nem estavam pintadas por dentro, sem acabamento, sem obturador que funcionasse, sem vedação, sem teste. Câmera sem teste ainda não é câmera. A primeira era para polaroid mesmo, porém não sei se foi feita para um back pola específico. Resolvi adaptar para um back médio formato da hasselblad. Originalmente o back era para polaroid, mas de fato será usado com filme fuji fp100c.
A segunda câmera está linda mas o chassi ficou mais no alto, o que faz com que a câmera não alcance todo o filme no chassi. Parte dele fica “batendo” na parede de cima. Só que antes de fazer o ajuste necessário, achei melhor testar o ângulo de visão dela e depois fazer a cirurgia.
Para isso fiz um obturador temporário.
Como ela está como grande angular acho que vou fazer algum ajuste para ela ficar um pouco mais fechada, para um ângulo mais normal, com menor distorção. E fiz um pinhole para a distância que está agora.
Eu adoro agulhas de acupuntura para construir as câmeras
Essas agulhas são usadas para acupuntura das mãos, a acupuntura coreana. (Dói demais) Muito muito tempo atrás eu estudei um pouco, já que meu pai estudou e em muitos casos me ajudou bastante. Só que aplicar em mim mesma é difícil. Hoje só uso para fazer as minhas câmeras, meu tratamento artístico medicinal. 😀 mas para esta câmera usei as agulhas de costura por causa do tamanho. É um pinhole temporário. Quero arranjar um metal mais resistente para essas câmeras, para não correr risco de ficar amassado.
Até fiz um post rápido no Instagram mas para mostrar os detalhes vou colocar aqui.
Agora vou explicar um pouco sobre quem foi a Fátima Roque. Ela foi uma fotógrafa e tinha um trabalho com pinhole. A família era de Portugal, ela sempre viajava para lá e um dia encomendou para um artesão duas câmeras de madeira. Para um artesão que não está acostumado a construir câmeras é realmente difícil entender a lógica do que se precisa para realizar um trabalho desse tipo. Por isso que quando resolvi montar materiais para fotografia, fiz eu mesma. Porque mesmo explicando, desenhando, com projeto e tudo, achar alguém que tope e faça do jeito que você quer é uma tarefa árdua.
E também vai uma explicação de família. Meu papi sempre construía o que ele precisava. Eu, filha do meio e curiosa feito um detetive, perguntava de tudo. Até perguntei o motivo dele fazer e montar quase tudo o que ele precisava. Daí ele contava que a mãe dele fazia tudo. Pra ele não tinha empecilho. Se você quer algo é só ir atrás. A mãe dele fazia o tecido, costurava as roupas, fazia sapatos, fazia a comida, plantava a comida, medicava os filhos. Se não tinha remédio, coloca umas agulhas que dá certo. Então a teimosia passou de geração em geração.
Ele aprendeu assim, de certa forma eu peguei um pouco desse pensamento. Porque na época ela não podia pedir para alguém e mesmo se tivesse como pagar nem tinha quem fizesse. E a vida é esse acumulado de aprendizados enfim. Eu muitas vezes até conseguiria pagar alguém para fazer. Difícil foi achar alguém que quisesse. Por exemplo na costura. Já pedi encomendas que a costureira não queria fazer de jeito nenhum. Entendo. É fora do padrão e leva mais tempo pra entender e conseguir fazer. E muitas vezes quando faz o cliente diz que não era aquilo e volta a consertar e por aí vai. Daí fui eu aprender a costurar.
A melhor ferramenta é a que você tem nas mãos. Se você consegue achar alguém que faça ou se você mesmo vai tentar, o importante é ser teimoso e construir a câmera de madeira. As minhas não chegam perto do acabamento do artesão português. Pra eu chegar nesse resultado vai demorar muito. Mas as minhas funcionaram para fotografar, então isso é o que importa.
Agora vou testar e volto para mostrar os resultados.
Há muito fiquei devendo um post mais completo sobre dusting on. Existem várias técnicas de revelação a seco mas a que eu pesquiso desde 2005 é o motivo de eu fazer essas técnicas alternativas até hoje.
Fiz uma foto dessa chata que nem fala comigo… mas essa moça da foto me ajudou muito a chegar na fórmula. Foram meses tentando…
Já havia comentado um pouco sobre o começo disso, as técnicas descritas nos livros são um pouco diferentes daquela que eu faço. Por que? Porque a pessoa é teimosa e eu não queria que ficasse resíduo de dicromato na placa, então resolvi lavar a placa ao final do processamento como uma modificação do processo. E deu certo. Então qualquer fórmula que tiver lavagem de placa provavelmente é a minha, já que na ideia original não precisava disso, pois era uma técnica para queima em cerâmica então não fazia diferença se havia residual ou não.
Dusting On da Beth Lee 🙂
50ml água
2g de gelatina
10ml de mel *
5g de dicromato de potássio
*até mel falso funciona (sim! existe mel falso!!)
Como preparar a fórmula:
-Pese a gelatina. Coloque uma parte da água fria para hidratá-la por cerca de quinze minutos. Recomendo que seja entre 20 a 25ml de água. Após esse tempo, adicione água a cerca de 55 graus mais ou menos. A temperatura final não pode ultrapassar os 50 graus, caso contrário a gelatina perde suas propriedades. Eu prefiro adicionar água a até 55 graus e deixar em banho maria até dissolver direito. Depois adicione o mel, por fim o dicromato. Essa fórmula é bem sensível à luz então luz indireta incandescente para trabalhar.
A técnica necessita de um certo controle de umidade e temperatura. Digamos que um ambiente polar talvez seja ótimo. Mas se estiver num tempo seco (ar condicionado funciona bem), a 20 graus vai dar muito certo. Se estiver úmido e quente, sinto desanimar, vai dar trabalho.
A fórmula funciona melhor se deixar descansando por cerca de 1 hora e meia.
Escolha uma superfície lisa, vidros ou metais funcionam bem. Aplique uma camada fina.
Fina é difícil de descrever. O mais fina possível. Porque senão vai demorar pra secar e vai ser à toa. Essa semana mesmo tentei mostrar uma camada fina, acho que essa percepção muda de acordo com a experiência. Tô tentando fazer um vídeo sobre isso mas tá faltando tempo. Um dia consigo.
Seque até o positivo ( é um processo positivo-positivo) não grudar na superfície. Se encostar a luva e não ficar marca, é o ponto certo. Sim! Use luvas! seja educado com suas fotos. E avental!! – ah mas a roupa se manchar eu jogo fora… mottainai! dê valor aos objetos. Especialmente sua saúde. (nota: eu faço esses processos e estou sempre tomando cuidado com o contato desses químicos. Se algo faz mal eu sou uma das primeiras pessoas a sentir. Eu passo mal com REPELENTE! só pra terem uma noção da sensibilidade aqui)
E mesa de luz. Em geral deixo o mesmo tempo de goma bicromatada. O que vai entre 2 a 3 minutos. Varia de acordo com a intensidade da lâmpada.
momentos de revelação. o pó é muito fino. cuidado para não fazer ele levantar no ar.
E por fim momento de revelar com pigmento.
Eu uso o pigmento mineral. Pó xadrez funciona bem também.
Alguém usou canela. não dá pra lavar depois.
Depois é só expor na luz novamente para terminar de endurecer o restante.
Qual é a história minha com esse processo? Em 2005 eu vi essa técnica e desde então pesquisei e testei fórmulas. As fórmulas que achei não faziam a lavagem da placa e deixava um véu acinzentado que me incomodava. Algumas vezes nem incomodava tanto, mas eu queria tirar o resíduo para ficar mais clara. Então na época pensei que como os filmes fotográficos eram feitos de gelatina, se eu adicionasse à fórmula criaria uma emulsão mais resistente. Mas até chegar nesse final feliz foram muitas tentativas. Então se não der certo na primeira é a coisa mais normal. Fiquei meses testando fórmulas.
Estamos finalizando uma turma de pinhole no Sesc Carmo e cada Sesc para mim é uma casa, que às vezes retorno, às vezes só passo e fica uma saudade…
É que cada um tem uma recepção diferente. No Carmo eu sempre vou tomar um café e o moço que trabalha lá pegou um papel com o nome da minha atividade. “Fotografia no buraco de agulha…” e deu um sorrisinho. Aí eu achei graça e brinquei que ele estava rindo da minha atividade. Daí já me tornei a pessoa reconhecível e desde então a gente conversa antes das aulas.
Daí eu mostrei a câmera e então ele já sabe até quem são os alunos, já que eles andaram com a câmera pendurada vez ou outra, nos dias que a gente saiu pra fotografar.
Essas conversas não me recordo de ter em outro curso com alguém que não estivesse ligado à atividade.
Então lá eu criei esse ritual. Sempre que posso, converso com ele. Mostro os resultados.
Afinal desde o começo, café e pinhole se misturam. (no meu cotidiano)
Eu amo fotografar pelo centro. Sempre falo isso. Porque desde criança eu ia para lá ajudar meu pai, fui muito cedo na adolescência buscar peças pra ele e eu ia sozinha. Sempre gostei de andar na praça da Sé, acho bonito. Mas como tudo no Brasil, acho que está desvalorizado, as pessoas não sabem a beleza que tem esse país.
Fiz saídas com alunos do cursos técnicos e livres do Senac, do Sesc Belenzinho, da Afpesp. Muitas vezes acompanhei as saídas do Edison com o pessoal do Sesc Pompéia. Mas saída de pinhole é melhor, porque muitas vezes as pessoas não fazem ideia do que a gente está fazendo.
Parte do meu pensamento quando reflito sobre porque faço essas câmeras se volta quase como uma vingança. Ou uma conquista. Quando conseguimos dominar os conceitos de se produzir uma imagem com uma caixa de papel preto, com um pequeno furo. Aquele sentimento de “eu sei porque você aparece, imagem. Você está sendo compreendida (pelo menos no seu aspecto técnico) por mim.”
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Ao ver a reação de algumas pessoas lembro do meu vizinho. Ele foi um dos primeiros moradores da rua. Quando era tudo terra, dizia ele. Assim que o campus da Usp foi construído, o entorno foi sendo habitado pelas pessoas que trabalharam nas obras. O meu bairro, Rio Pequeno (amo também) em parte teve suas raízes nesse momento, pois fica logo atrás da Usp. Esse meu vizinho, seu Luís, nem sei se sabia ler. Desde pequena sempre brincava comigo, de vez em quando dava umas piruetas pra me fazer rir.
Era um homem tão simples, nem portão sua casa tinha. Eram tábuas de madeira desalinhadas. Acho que ele gostava assim. Antes eu não entendia. Hoje acho que entendo ele.
Certo dia eu andava com minha câmera pinhole totalmente disfarçada pela rua. E ele já sabia o que era. “Isso é uma câmera.” De longe ele afirmou. Já nos seus setenta anos ele enxergava bem de longe.
A maioria das pessoas não fazia ideia.
Sinto saudades dele. Que esteja em paz.
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Revelamos nossos filmes. O pessoal tira o filme da câmera e já colocamos pra revelar na aula seguinte. Pra ver que funciona mesmo!! Utilizamos o filme Ilford PanF Plus ISO 50 e aproveitei para revelar com o revelador que eu fiz, da fórmula do D-76 Kodak.
é uma câmera charmosa vai!
Acho que eu amo muitas coisas. Também amo revelar. Tenho um relacionamento muito sério com a fotografia. Ela esteve comigo desde meus 19 anos. Nunca me deixou, nunca me decepcionou. Só felicidades. Dela não me separo nunca.
E sim! Revelar um filme TODO mundo deveria revelar um na vida!!
Se tem algo que me acalma é entrar no lab (mesmo que seja adaptado, afinal o que não é adaptado no começo, não é mesmo?) Nesse momento você precisa sentir que a imagem vai dar certo com seus dedos, só com o tato, porque precisa colocar o filme no escuro total. Até hoje me lembro do meu primeiro dia de revelação.
O que a gente pensa muitas vezes é que talvez não saia nada. De certa forma a mente fica no escuro por não saber o que pode acontecer. Também achava interessante esse equilíbrio entre luz e a falta dela. Ao mesmo tempo que precisamos de luz, precisamos do escuro. O yin e o yang ficavam rodando na minha cabeça.
Eu não sei exatamente como é aprender a revelar um filme fora de um espaço de laboratório, apesar de ter ensinado a eles assim. Talvez a magia seja diferente da que eu percebo, porque afinal, não coloco eles num quarto totalmente vedado à luz para enrolar o filme na espiral.
O Jão vendo seu primeiro filme revelado
Por essas questões que resolvi dar aulas. A pesquisa e os procedimentos me chamam a atenção. Tudo o que eu queria fazer era ligado à leitura de técnicas e processos que na maioria das vezes tinham pouco material bibliográfico em português. E o que tem e é muito bom está nas universidades, nas dissertações.
Este blog eu comecei um belo dia, ( era um belo dia mesmo) enquanto eu estava na faculdade. Uma imagem que fiz em infravermelho me fez ter essa vontade de mostrar “as coisas que não se vê”. E mais pra frente explico o que foi isso.
Deixo uma frase aqui do Flusser que foi o segundo post do blog. Eu só citei, sem analisar porque acho que não precisa. Mas se você ler isso de noite, é pra dormir bem, se ler mais cedo é pra começar bem o dia.
“Imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens.”
hoje inicia um festival na Rua do Carmo – Sé – Ideal Prohibido na qual eu participo junto do Edison Angeloni, Roger Sassaki, Maurício Sapata e Maurício Silva. Montamos uma câmera obscura + periscópio em uma sala no terceiro andar além de uma exposição de algumas obras. Terão algumas atividades gratuitas e demonstrações. O Sassaki fará demonstração de placa úmida e Sapata fará fotografia lambe-lambe.
Programação Paper Box. Rua do Carmo, 56 – em frente ao Poupatempo da Sé.
Sexta 17
10h – Salas abertas. Camera Obscura com lente simples.
14h – Recepção dos visitantes
16h-17h30 – atividades com a câmera obscura.
Sábado 18
10h-17h30 – Salas abertas. Demonstrações na Camera Obscura (lente e periscópio). Turmas livres, ao longo do dia.
11h-17h – Demonstração de fotografia em Lambe-Lambe, ao longo do dia. – Maurício Sapata
14h-17h – Demonstração de fotografia em placa úmida, ao longo do dia. – Roger Sassaki
Domingo 19
10h-17h30 – Salas abertas. Demonstrações na Camera Obscura (lente e periscópio). Turmas livres, ao longo do dia.
11h-17h – Demonstração de fotografia em Lambe-Lambe, ao longo do dia. – Maurício Sapata e Elcio
11h – oficina de construção de Câmera Obscura – Mauricio Virgulino
15h – oficina de construção de Câmera Obscura – Mauricio Virgulino
Nessas últimas semanas fiquei um tanto ocupada com a montagem de uma mesa de luz. Uma pessoa queria iniciar os processos e já de cara investir num equipamento. Por conta dos seus horários, tentativas com o sol são um meio quase impossível.
A minha intenção muitas vezes é de tornar acessível a ideia de fazer os processos alternativos então mergulhei nesse projeto como se fosse para mim. Porque de certa forma isso que faço para os outros se reflete de alguma forma de volta e eu fico feliz.
Então ele deu a sugestão de que queria o projeto com acabamento em madeira e eu adoro madeira. Como eu tinha um tanto de material sobrando pensei em fazer o acabamento em marchetaria.
Como faziam uns 4 ou 5 anos que não fazia essa técnica, fiquei na dúvida se ia ficar bom. Para minha surpresa o pessoal nas redes sociais gostou bastante.
De certa forma acabou sendo uma experiência e de certa forma, juntei com a sorte de ter um material meio na mão. Mas também fiz porque ainda estou aprimorando meus projetos e ainda quero modificar muita coisa.
As listras sempre me lembram sons. Eu sempre digo que a fotografia tem a ver com música, por isso as parte lateral está cheia de “som”.
A superior pensei num padrão ao estilo Athos Bulcão. Porque muitas vezes quando estou produzindo fico esperando a cópia expor seu tempo na luz e pensei que seria legal algum acabamento que fizesse o olhar percorrer caminhos sempre diversos.
Logo mais farei um passo a passo de como faço as mesas, mas para cada caso é realmente único. Acho que esses materiais precisam ser produzidos de acordo com a necessidade e espaço de cada um. Algumas são mais portáteis, outras mais robustas. Muitas vezes precisam ser transportáveis e assim vou pensando em adaptações.
Logo mais atualizo sobre esse tipo de projeto.
Enquanto isso, minha primeira mala de luz, a pequena, vou aposentar.
Ela nem sempre cabe bem nos carros que preciso pedir, alugar. E eu tenho preguiça de aguentar a má vontade de alguns motoristas ou a loteria de acabar pegando um carro no qual ela vai caber sofrendo, então vou deixar a estrutura para outra finalidade.
Um dia olhando fotos de cianótipos e vandykes senti falta de magenta. Coisa estranha de se sentir.
Final de semana fui revelar dois negativos. Para aproveitar o espaço e tempo peguei um tanque que cabem cinco filmes. Resolvi revelar 4 de uma vez.
Filme colorido. A perfeição. Não resisti. A felicidade tão sublime de quinze minutos com aquele cheiro ruim me fez enrolar mais cinco filmes. Não. Espera. Dá tempo de revelar mais cinco. Porque não coloquei cinco filmes na primeira leva??
Acabei com 14 filmes revelados.
Fui contar quantos tinham ainda para revelar. Mais de 30. Que absurdo. Tem filme de 2012.
Tudo que eu acreditava foi perdido em 2012. Será que aguento ver um filme de 2012?
Naquele ano eu acreditava em justiça, em coisas reais. Eu trabalhei tanto.
Eu só quero viver a vida, pelos meus irmãos e por mim. Estudei muito. Eu perdi meu pai com 22 anos e desde então a gente se vira. Sempre tentei melhorar a vida da gente.
Mas tem sempre alguém que quer fazer mal. É aquele concorrente que quer te prejudicar. É o pai da minha sobrinha que nem vê a filha e até fugiu do país para não pagar pensão. É aquela pessoa que tenta te enganar. Aquela amiga que sofre por causa de um idiota.
Ao menos o processo de revelação do filme é algo que quero fazer. O resultado dessas imagens nem sei se quero ver. Elas são o passado.
O que vale a pena ser fotografado se a gente pode se arrepender de ver novamente?
Daí fui digitalizar os resultados. Saídas fotográficas pela Lapa. Amigos. Viagem. Até agora resultados bons. Me faz lembrar do documentário sobre Araki. Perguntado sobre as suas imagens, respondeu que ele gostava de fotografar o que ele queria lembrar.
Tá aí uma das fotos dos quatorze filmes de domingo. Pra me lembrar que nada é para sempre, nem nossas convicções sobre os outros.
efêmeros
ok… voltando a esse post em 2021 percebi que nem escrevi sobre revelação mesmo. Vou resolver isso