Sobre álbuns

comecei a fazer álbuns por uma questão de simples resgate das memórias que nem são minhas. Acho que em parte é uma tentativa de resgatar a história da família que nem conheço. Quando vi os álbuns do bisavô da Fabi percebi que existia algo a ser preservado lá, porque a encadernação era artesanal, diferente dos álbuns atuais que parece muito plástico e que justamente por ter sido produzido por alguém me pareceu que o cuidado era bem diferente e bem majestoso.

Eu não tive álbuns assim na minha família. Só lembro de alguns bons anos atrás ter comprado um álbum e não gostei muito da solução. Cheio de plástico e somente para tamanhos 10x15cm, ou seja, não serve para todas as imagens que gostaria de colocar.

adoro essas fotos desfocadas. eu e meus irmãos, grudados desde sempre.
e esse plástico que não dá pra saber se é próprio.

Também me surgiu outra questão. Eu não tenho imagens dos últimos dez anos da minha própria família. Bom, nos quase dez anos eu na verdade não vivi com meus irmãos e minha sobrinha. Me separei faz pouco tempo. Ainda assim tenho poucas imagens em suporte material e olhando hoje vi que não tenho fotos impressas da minha sobrinha dos últimos dez anos.

Bom, lado pessoal da coisa, minha sobrinha é uma menina PCD. Eu sei que a chance dela viver até a fase adulta é muito pequena. E o aprendizado dela é lento, com as crises de epilepsia percebo que as palavras que ela pouco aprendeu, esquece muito rápido. Desde os seus nove meses tenho imagens de celular, muitas, porque quando ela via que eu ia tirar foto com meu Sony Ericsson ela sorria. São tantas imagens que nem sei como vou fazer. às vezes acho que vou fazer um álbum para durar mais que ela. Tenho pensado nessa questão da duração das imagens. Por isso resolvi fazer atividades sobre álbuns, para fazer as pessoas produzirem álbuns para preservar essas imagens das pessoas importantes nas suas vidas.

Já se passaram dois encontros no curso do Sesc Pompéia. Esta semana iniciaremos a montagem dos primeiros álbuns.

Mas já vamos pensar onde guardamos as fotos da família? não me diga que é na caixa de sapato.

Álbuns fotográficos no Sesc Belenzinho

Nesta quinta feira começa um novo curso que farei junto com a Fabi Won. Nós começamos a trocar ideias sobre nossos antepassados coreanos e começamos a analisar a história dentro dos objetos que nos contam algo sobre família. Essa pesquisa acabou virando curso e faremos um álbum baseado nos exemplos dos anos 30 que o bisavô dela deixou.

São 6 encontros, quintas 19-22h

https://www.sescsp.org.br/programacao/encadernacoes-para-albuns-fotograficos

Fiz esse álbum para mostrar o modelo que faremos na atividade. A ideia é também fazer uma capa que represente uma tradução de algo que representa a memória do que vai ser guardado nesse álbum. Recentemente que deparei com a questão de quanto tempo se leva para trabalhar uma imagem fotográfica alternativa e o resumo é que é um bom tempo olhando para a mesma imagem. Esse momento de contemplação é bem diferente do tempo de se olhar fotos no celular, sendo necessário perceber suas nuances, seu resultado final na matéria. A proposta de fazer um desenho para a capa vem dessa questão em parte. Contemplar um objeto de família ou uma fotografia e criar um trabalho a partir disso. Faz pensar no que a gente quer que represente algum legado que deixamos.

E parte também de uma necessidade nossa de colocar algo que tem um significado e que pode passar por gerações. Quando olho os álbuns de família eu sinto uma lacuna enorme de entender quem eram, onde e como viviam, porque essas informações se perdem e não sabemos muitas vezes quem eram as pessoas nos álbuns que guardamos.

Aliado a esses devaneios, fica o pensamento de que muita gente nem sabe mandar fazer saída de fotografia digital e como conservar e guardar essas imagens. Por isso para mim acaba sendo importante poder passar o que eu penso sobre o assunto. Então acabamos programando um curso que envolve encadernação, história, desenho, fotografia e como conservar essas imagens.

Eu e a Fabi nos conhecemos na cerâmica na Associação dos Ceramistas Coreanos no Brasil (posso ter invertido a ordem das palavras) e desde então temos trocado muitas ideias sobre a comunidade, o fazer artístico e os perrengues que a gente leva na vida. Sobre a fotografia percebemos que a forma como enxergamos essa ancestralidade tem muitas perguntas também por ser de um país tão distante com uma cultura tão diferente da que vivemos, mas também porque parece que ao mesmo tempo em que nascemos aqui temos uma necessidade de entender de onde vieram essas raízes. Posso dizer que sempre me senti muito brasileira e quanto mais conheço a cultura coreana, apesar de ser bonita, ainda gosto mais do Brasil.

Vejo de alguma forma que a vida dos meus avós e do meu pai foi marcada de tristezas e violência, já que foi em momentos de guerra que meu pai nasceu. E pelos relatos dele sempre tive a sensação de que havia um ressentimento por ter sofrido e perdido tanto, num lugar que ele nunca pensava em voltar.

A imagem do álbum é uma cianotipia de uma página do dicionário inglês-coreano que meu pai me deixou. O que ele mais gostava de fazer parecia ser aprender línguas. O papel azul da capa é um papel tingido com cianotipia. Teve momentos em que eu não conseguia pensar em produzir imagens, já que durante a pandemia senti a fragilidade de se trabalhar com que eu trabalho, parecia que meu trabalho não valia nada. Então sem querer fiz esse papéis sem imagens. Sem querer, ficou com as cores da Coreia.